sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

The Post - A Guerra Secreta | CRÍTICA


Não é de hoje que o jornalismo impresso anda a duras penas em suas discutíveis tentativas de se adaptar a novas tendências – e sobram exemplos de tradicionais jornais da praça e ao redor do globo que se viram reduzindo caracteres, expandindo anúncios coloridos e, daí para pior, demitindo redatores e fechando galpões de prensas – da mesma forma que ataques truculentos de políticos contra a liberdade de expressão não são novidades desta década, seja aqui ou lá fora. Aparentemente em contínuo entusiasmo com seu êxito pelo oscarizado Spotlight: Segredos Revelados e ciente dos ininterruptos rebuliços de Donald Trump com a mídia, o co-roteirista Josh Singer e sua parceira Liz Hannah entregam nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg uma história verídica que, embora situada há quase cinquenta anos, não poderia ser mais necessária por seu eco com a atualidade.

The Post - A Guerra Secreta conta que, no início da década de 1970, os Estados Unidos viviam uma fase amarga dada a continuidade da Guerra do Vietnã e suas estatísticas nada favoráveis negligenciada por uma Casa Branca presidida por Richard Nixon que, ano a ano, mais recrutava e tirava jovens de seus lares para dificilmente retornarem de um conflito situado do outro lado do mundo cujos princípios eram nada transparentes para a população, tão levada a crer que tudo isso se tratava de uma ação anti-comunista de praxe. Até então, o The Washington Post era um jornal local dedicado à cobertura de incidentes comuns e de colunas sociais, além de ser lido por um público de maior parcela feminina (porém de redação majoritariamente masculina) e que, de suas olhadelas nas matérias dos grandes veículos impressos, também receava com o amplo alcance do telejornalismo e suas informações precisas e minutadas. Com isso, disposta a fazer seu jornal tomar passos maiores não só em questão de conteúdo como para ter uma circulação abrangente pelo país, Katherine Graham recorre à bolsa de valores enquanto seu fiel editor-chefe, Ben Bradlee, instiga a equipe de jornalistas a correr atrás das notícias ao invés de esperá-las chegarem pelo editorial, especialmente quando parte de um dossiê secreto sobre a infame guerra cai como uma luva na redação e se torna uma peça favorável para a esperada expansão do veículo. No entanto, publicar uma série de documentos oficiais de tamanha importância se torna um entrave burocrático que se intensifica quando o The New York Times está à frente do caso e na mira de Nixon, tão sedento em silenciar a imprensa alheio à Constituição da mesma forma que barrou o The Washington Post na cobertura do casamento de sua filha por puros receios de uma desmoralização americana.


De cunho maçante e pouco atrativo para os aficionados das obras mais lúdicas de Spielberg, a verdade é que há muitos elementos em jogo durante o andamento de The Post que se fazem necessários para a compreensão de um caso tão delicado que a equipe tem em mãos, ainda mais quando Kay Graham e Ben Bradlee sempre estiveram de mãos dadas com figuras políticas e o quanto, a princípio, o jornal esteve a disposição destas no passado. Nisso, o roteiro investe em digressões a solta para aprofundar a grande questão, seja pelos eventos sociais por onde Kay passa e encontra o Secretário de Defesa Bob McNamara (um amigo de sua família e, não por menos, o mesmo que encomendou o tal dossiê) ou quando Bradlee reflete para a esposa sobre a amizade que tinham com John e Jackie Kennedy, ao passo em que Ben Bagdikian fica a cargo da tarefa mais investigativa do processo para, posteriormente, a redação se debruçar sem tréguas sobre os arquivos – afinal, não se desperdiça tempo com tamanha chance de ouro.

Uma vez que seu conteúdo é perigosamente dispersivo, Spielberg não poderia ter elenco melhor com quem trabalhar – logo num prazo tão apertado após encerrar a fotografia principal de seu vindouro Jogador Nº 1 – e não só aproveita o talento e apreço popular garantido de Meryl Streep e Tom Hanks como permite ambos complementarem brilhantemente seus personagens e, a partir daí, segurar a atenção do espectador. É interessante ver como Kay, apesar de ser uma senhora de posses e respeitada justamente por isso em uma época onde muitas portas ainda se viam fechadas para mulheres, por vezes se vê receosa diante de tantas tomadas de decisões cruciais muito porque quase sempre tivera um homem falando por ela (e desdenhando de seu cargo no jornal), ainda abalada pelo suicídio do marido, mas que encontra em Bradlee e em sua família motivos para manter o pulso firme e, quem sabe, ser uma inspiração para outras mulheres. Já com Tom Hanks, não é preciso se delongar para dizer o quão competente e cativante surge em cena, muito embora seu par romântico vivido por Sarah Paulson merecesse um maior destaque em tela além de preparar sanduíches. Entre o elenco de apoio bem suplantado, com um Jesse Plemons vivendo um advogado prestes a aprender que as coisas são diferentes na prática, quem rouba a cena por vezes é Bob Odenkirk com suas habituais artimanhas que fazem de seu Bagdikian não só um dos personagens mais divertidos, como um dos únicos que movem a ação que aqui fica em desvantagem.


Entre os gracejos que Spielberg adora colocar em cena para aliviar a tensão, o diretor não deixa de compor uma boa mise-en-scène valorizando a profundidade de campo e toda a ação em segundo plano como também é hábito em sua filmografia – e um quesito que deixou um pouco a desejar em Spotlight. Aqui, o diretor faz do ambiente de redação do The Washington Post um local por vezes tumultuado e de atividades e ruídos ininterruptos ou até mesmo na própria casa de Ben Bradlee, quando a filha deste passa pelo corredor com uma placa de limonada com valor inflacionado ao mesmo tempo em que parte da equipe de redação se vê tão concentrada nos arquivos confidenciais – só é uma pena que a edição cometa pequenos equívocos ao cortar os planos apenas para mudar de câmera ou quando estabelece uma montagem um tanto cafona com Streep virando para os dois lados diante da conversa dupla que tem ao telefone. É interessante notar também como o diretor de fotografia Janusz Kaminski, em sua vigésima colaboração com Steven Spielberg, adere às lentes grande-angulares para comportar todas essas atividades enquanto sua planta de iluminação se aproveita das práticas lâmpadas fluorescentes para compor os cenários do jornal, preenchendo os rostos dos jornalistas ocasionalmente com um ponto de luz distante, porém vívido. Em um óbvio contraste, Spielberg e Kaminski filmam se aproximando em zoom de um Nixon falando ao telefone mergulhado em uma penumbra alaranjada dentro da Casa Branca, prenunciando os maus tempos pelos quais o presidente viria a enfrentar.

Glorioso para qualquer jornalista pelo resgate dos princípios instintivos de sua profissão (exultada também com a trilha crescente de John Williams) e assim para o público leitor que sempre gostou de ter em mãos um artigo bem redigido ao invés de falsos enunciados em títulos, gravatas e textos que carecem até de diagramação (e como o mundo virtual vem sofrendo com click baits e fake news!), bem no fim, The Post pode não ser o melhor exemplo de filme de investigação jornalística (novamente, dado o seu tempo apressado de produção), mas não há dúvidas de que suas peculiaridades certeiras o tornam um filme digno da carreira de Spielberg cuja filmografia, tal como os "heróis" em questão na década retratada, também ajudou sua nação a superar o mal estar que lhe aplacava.




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