domingo, 21 de janeiro de 2018

Me Chame Pelo Seu Nome | CRÍTICA


Ter uma experiência imersiva no cinema atualmente virou sinônimo de uma sessão embalada com telas maiores, projeção 3D, sistemas de som multicanais e/ou com quaisquer outros aparatos tecnológicos a fim de estimular o espectador a pagar um ingresso justamente para se ter o máximo de sensações propostas pelos filmes exibidos que, apesar desses tantos e encarecidos atrativos, acabam se esquecendo do que lhes deveria ser o primordial. Exceção a tal padrão mercadológico, Me Chame Pelo Seu Nome é um ótimo exemplo de como uma narrativa bem lapidada pode ser tão envolvente a partir de seu profundo exercício de empatia e de sua ambientação idílica que convergem em um completo resgate de uma época cujas entrelinhas de sua marcante expressão cultural ainda escondiam sentimentos reprimidos, fazendo desse conto de amor um retrato intenso e apaixonante por merecer.

No distante verão de 1983 no norte da Itália, o jovem Elio (Timothée Chalamet) se reveza em matar o habitual marasmo das férias lendo vários livros, transcrevendo e rearranjando as mais intrincadas músicas clássicas e, para amenizar o calorão, sai de bicicleta com as amizades e com direito a muitos banhos nos rios das redondezas. Todavia, tudo isso não passa de uma enfadonha rotina para o garoto de 17 anos que ainda precisa aturar as longas (e poliglotas) conversas à mesa com parentes e demais amigos dos seus pais, a ponto de que a maior novidade mesmo sempre fica a cargo da chegada de um novo assistente acadêmico de seu pai, o Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg), na catalogação das curvilíneas figuras greco-romanas. Sendo o "usurpador" da vez, Oliver (Armie Hammer) é inteligente e galante, o que não tarda para que todas as pessoas que circulam pelo casarão dos Perlman gostarem do americano, exceto aquele que teve que ceder o próprio quarto e aturar alguns hábitos do hóspede. Mas tamanha implicância de Elio para com Oliver acaba escondendo e, posteriormente, revelando não só uma afinidade que os torna amigos íntimos, como faz crescer no jovem uma atração passional da qual ele tanto anseia para descobrir o seu gosto e a sua reciprocidade.


Roteirizado pelo veterano James Ivory a partir do livro homônimo de André Aciman, é curioso notar como o diretor Luca Guadagnino torna Call Me By Your Name mais do que um filme sobre as juvenis relações amorosas com todas as peripécias típicas da turbulenta passagem dos anos finais da adolescência para a vida adulta e suas resignações, senão uma espécie de uma regressiva imersão à estética oitentista sem que isso pareça datado narrativamente, por mais que sua "lentidão" possa desagradar o público acostumado com os apressados picotes contemporâneos. Seja pelos créditos iniciais com imagens estáticas ao som de um piano, pela trilha sonora eclética que vai do erudito ao pop, além de toda a parte dos figurinos de camisas largadas e os penteados das moças pra lá de volumosos, Ivory e Guadagnino se divertem ao mostrar um mundo mais pacato justamente por haver mais contato físico e diálogos no início de uma década onde aparatos digitais eram minoria (nisso, o relógio de pulso de Elio preenche a cota), além de rir do eco dos papos conservadores de parentes e pelos pequenos vexames que só a falta de experiência é capaz de nos propor, sem se esquecer, ainda, de olhar com ternura para os caseiros sempre prestativos. Em outras palavras, era um tempo de poucas exigências e aparências para bem aproveitar a vida e ser feliz ao seu modo e sem rótulos, por mais que assumir isso ainda era atrelado a uma dose de receio.


Tal como o olhar de Elio para Oliver, a câmera do diretor de fotografia Sayombhu Mukdeeprom enfatiza a contemplação não só entre os personagens, como aproveita ao máximo as luzes naturais e todo o esplendor da natureza italiana e de suas edificações que pararam no tempo a favor da rusticidade pretendida por Guadagnino, cuja decupagem evita planos de detalhes didáticos e abraça enquadramentos amplos privilegiando a profundidade de campo e sem medo de estender a duração de seus planos mediante a magnética interação do elenco. Nisso, ao passo em que o diretor enquadra os protagonistas cada vez mais próximos com suas tensões crescentes, é impressionante ver a dedicação dos atores ao projeto e, uma vez que Chalamet pouco teve o que fazer em Interestelar, culminando em um Elio que é um misto de bondade dada a sua boa educação (e que pais!) e dono de um ego forte que não se dá por vencido tamanho intelecto e anseio a ponto de se tornar impulsivo e sensualmente provocante, tanto em seu "namorico" com Marzia (Esther Garrel, outra ótima revelação) ou posteriormente com Oliver. Ao cargo de Hammer fica a representação de um jovem amadurecido, porém comedido o suficiente a ponto de agir por gestos sutis para, enfim, expressar indiretamente o que tanto sente, tal como era de se esperar de um bem-nascido filho de uma tradicional família americana. Mesmo sobrando elogios para os dois atores, o que é espetacular no filme são as carinhosas interpretações de Amira Casar (radiante a cada cena como Annella) e Michael Stuhlbarg que, com seu semblante estudioso, entrega um dos monólogos mais bonitos e marcantes desta década de filmes e que não deixa dúvidas de que sua carreira (atuante, mas de papéis pequenos – vide Doutor Estranho, A Chegada e The Post) já não será a mesma de antes.

Sendo outro grande acerto do produtor brasileiro Rodrigo Teixeira (premiado no Film Independent Spirit Awards por A Bruxa), belo por todo o seu valor de produção, além de inteligente por se esquivar de clichês baratos de produções similares (aqui não há espaço para incidentes de opressão ou patologias servindo de conflitos), Me Chame Pelo Seu Nome também é dono de mensagens sublimes, tal como a de seu título e a analogia ao amor-próprio (senão uma das primeiras e maiores formas de auto-aceitação e de afeto ao outro) e por provar que a sabedoria sempre foi o elemento definitivo contra a intolerância em todo o seu espectro. De fato (e sem querer exagerar), o filme é como um suco de abricó: de cor e consistência intensas, cujo aroma marcante e sabor peculiar nada mais são do que o suficiente para entregar uma experiência inesquecível.





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