sábado, 17 de fevereiro de 2018

Lady Bird - A Hora de Voar | CRÍTICA


Se uma das sínteses do cinema autoral nada mais é, em poucas e simples palavras, do que uma coletânea de características de muito cunho pessoal de seu artista recorrentes em suas narrativas fílmicas, então Lady Bird há muito o que dizer sobre sua cineasta, Greta Gerwig. Desde que estrelou e co-roteirizou o descolado Frances Ha, a talentosa atriz foi ganhando apreço no circuito alternativo com títulos igualmente elogiados pela crítica até que, por fim, encontrou o espaço e a ocasião ideais para contar uma narrativa semi-biográfica que, embora contenha diversas semelhanças com o que já fora visto no que concerne os teen movies, não deixa de ser encantadora e carismática dada a honestidade que Gerwig emprega em sua bem-vinda estreia como diretora.

Moradora da interiorana Sacramento e estudante do último ano do colegial em uma escola católica, dizer que Christine McPherson (Saoirse Ronan) nada mais quer do que ser chamada de "Lady Bird" seria um ledo engano, porque a garota – de nome rebatizado por ela própria – quer é muita coisa. Nesses anos tão conturbados que são o final da adolescência, onde o mundo espera que o(a) jovem tenha uma carreira e um plano de vida pré-estabelecido para se por em prática a partir do momento em que se atinge a maioridade, Lady Bird sonha com o nicho cultural das universidades da costa leste americana ao invés de ficar nas redondezas e ter de optar por cursos técnicos ou de Agronomia, assim como quer chamar a atenção do rapaz bonitinho das aulas de teatro (e se apaixonar e, quem sabe, perder a virgindade) e se divertir com a melhor amiga, Julie (Beanie Feldstein). Não por menos, Christine almeja com o estilo de vida da vizinhança do Fabulous Forties e ser como uma daquelas meninas que podem se dar ao luxo de ler revistas na cama e ter vestidos bonitos, mas a condição na casa dos McPherson na virada de 2002 para 2003 não vai muito bem.

(Universal Pictures/Divulgação) 

Capitaneado a uma maleável mão de ferro pela mãe-coruja que é Marion (Laurie Metcalf), o lar de Lady Bird se vê em contenção de despesas uma vez que o patriarca, Larry (Tracy Letts, afável), passa pelo processo de desemprego (e as consecutivas portas fechadas para um profissional de meia-idade), minando aí as chances de prover um apoio financeiro para realizar o sonho acadêmico da garota, temerosa em seguir os mesmos passos de seu irmão mais velho, que se acomodou, casou e jamais saiu dali – e, o que é "pior", vivendo no mesmo teto dos pais. Deparando-se com uma nova frustração a cada dia, sendo muitas delas provenientes dos atritos com a mãe, Lady Bird toma como escape a negação do que comumente forma seu caráter a partir do ímpeto em se parecer alguém que nunca foi e, quando mais se afasta do motivo de ter uma alcunha indicativa de uma personalidade segura e forte, a ponto de forçar uma convivência com as garotas ricas da sala, mais Christine/Lady Bird compreende o valor das coisas simples da vida e que até a sua vizinhança e cidade não são de todo o mal perto da cinzenta megalópole que ela pretende migrar.

Aparentemente influenciada pelo estilo de direção dos cineastas com quem trabalhou, a realização de Greta Gerwig acarreta em um elenco de jovens e veteranos confortáveis e dedicados em representar este conto tão mundano e verossímil para qualquer espectador(a) que passou pela adolescência (ou que tenha visto seus filhos por essa turbulenta passagem) na década passada, sendo divertido e até estranho notar elementos integrantes de uma realidade já distante (o único computador da casa localizado no quarto do irmão mais velho, o estremecimento em ver uma guerra e seus bombardeios programados para a exibição na TV, o pensamento dos pais de que o ensino em um colégio religioso garantirá uma melhor formação); além dos nomes já mencionados, destacam-se Lucas Hedges (Três Anúncios Para Um CrimeManchester à Beira-mar) e seu retrato do garoto dos sonhos de qualquer menina, Timothée Chalamet (Me Chame Pelo Seu Nome) entregando o cúmulo do que hoje entendemos como "embuste", sem se esquecer de mencionar os caridosos Stephen Henderson (Um Limite Entre Nós) e Lois Smith que interpretam suas figuras religiosas que ainda fazem prevalecer o amparo e a compreensão ante as rígidas normas da instituição.

(Universal Pictures/Divulgação)

Com uma câmera ocasionalmente fixa e de decupagem econômica a fim de se integrar ao cotidiano da jovem McPherson e daqueles(as) ao seu redor e, disso, exprimindo um humor sutil onde várias situações surgem como uma catarse das boas para qualquer ser humano que tenha frequentado um colégio católico durante a fase escolar, Gerwig olha para o passado (fictício e particular) com carinho e indica que sempre há tempo para se resignar e aprender com ele sem se abdicar do que formará o caráter da pessoa. Ainda que, por fim, transite por uma narrativa da qual lhe seja um lugar seguro que lhe previne de riscos (afora uns deslizes cansativos na segunda metade da projeção), a cineasta acerta ao se esquivar de maneirismos visuais e faz de Lady Bird - A Hora de Voar um prelúdio certeiro para a sua carreira de diretora com um cinema sensível por sua humanidade que, sem dúvidas, precisa voltar a pairar sobre os conturbados cenários atuais.



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