quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

Manchester à Beira-Mar | CRÍTICA


Diante da morte, não há frase ou gesto que conforte tamanha dor a não ser deixar que o tempo seja o remédio para tal perda. Enquanto algumas pessoas compreendem a fatalidade como uma parte natural do ciclo da vida, outras são tão consumidas pela angústia que até mesmo lugares e lembranças mais machucam do que remetem a saudade. Encontrando um bom mote diante do que é irreversível, não há espaço para condolências esperançosas em Manchester À Beira-Mar.


Trabalhando com a nostalgia e a melancolia lado a lado, Kenneth Lonergan escreve e dirige uma história mundana sem que isso soe pejorativo ou seja cinematograficamente desinteressante, algo recorrente em tantos longas brasileiros e sua obsessão em retratar a realidade do cotidiano apenas por modismos de festivais. Roteirista de Gangues de Nova York e Conte Comigo (o qual também dirigiu), Lonergan se aproveita do clima nebuloso e úmido das cidades que filma no intuito de recriar um espaço cada vez menos hospitaleiro para os personagens que circundam a trama, o que não quer dizer que a maioria careça de alteridade, usando o frio como uma mera desculpa para evitar trocar palavras. Dentro das casas, a mise-en-scène dispõe os personagens em meio a cômodos bagunçados onde brinquedos espalhados e porta-retratos também têm sua função narrativa em meio a uma instigante articulação entre passado e presente cuja diferença de tom é refletida até mesmo a fotografia.



No filme, Casey Affleck vive Lee Chandler, um zelador "faz-tudo" de vários prédios nas redondezas de Boston que não faz questão de interagir com seu meio social, parecendo mais do que conformado com sua infeliz rotina e seu cubículo no subsolo de um dos edifícios. Um purgatório voluntário que é interrompido quando lhe é chegada a notícia de falecimento de seu irmão, Joe (Kyle Chandler, muito carismático), fazendo com que o hesitante Lee não só tenha de voltar para sua cidade natal para os preparativos do funeral, como tomar conta de Patrick, seu sobrinho adolescente que, a princípio, está com a cabeça pensando longe no hockey, em namoradas, na banda de rock ruim formada com os amigos, no barco que sempre foi o ganha-pão do pai e que corre o risco de ser vendido e assim perder suas boas memórias do passado.

Com um ritmo lento, mas dono de momentos escritos com um precioso toque humano, Manchester By The Sea (no título original) reserva interações igualmente brilhantes do seu elenco. Aproveitando o semblante pouco expressivo típico da família Affleck, Lonergan faz com que Casey apareça sorridente, amistoso e apaixonado em cenas do saudoso passado do protagonista que contrastam com sua carrancuda atualidade, apesar de um ou outro esboço de sorriso diante do convívio com o sobrinho, graças a radiante interpretação de Lucas Hedges que, não por menos, reserva uma passagem intimamente devastadora gritando por um abraço (infelizmente não correspondido da forma como esperamos). O mesmo pode-se dizer da participação de Michelle Williams como Randi, a ex-esposa de Lee que não viu outra forma de sobreviver senão seguindo em frente.



Pecando apenas por sua antiquada trilha católica típica de um drama do início da década de 1990 e por se exceder em cenas de incidentes semelhantes, Manchester à Beira-Mar impressiona por sua originalidade ao assumir um pessimismo incomum para uma narrativa onde se espera que o luto seja superado, evitando a recorrência de reviravoltas envolvendo solenidades melodramáticas ou de cunho espiritual a cada ato. Apesar de resignações particulares, a vida segue para cada indivíduo e muitas vezes não há nada a fazer para ajudar a não ser deixá-los serem donos do próprio destino.




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