quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

O Destino de Uma Nação | CRÍTICA


Na maioria das vezes, filmes históricos tendem a se dividir em duas frentes de estruturas narrativas que há tempos se repetem por sua comodidade de condução e aceitação do público, embora existam casos em que seus cineastas realizam uma eficiente fuga ou mescla de ambas, flertando com gêneros ou discorrendo pontos de vista até então inéditos. Entre os custosos épicos de guerra e os introspectivos dramas baseados em fatos e pessoas reais, O Destino de Uma Nação está mais próximo do segundo caso em sua intenção de retratar o Primeiro-Ministro Britânico Winston Churchill e sua conhecida eloquência que motivou o seu país a cruzar o Canal da Mancha e, daí, combater o avanço nazista. Assim, o que presumivelmente parecia ser mais um filme pra lá de conversas burocráticas e andamento aborrecível, tal como O Jogo da Imitação, é nas mãos do habitualmente caprichoso Joe Wright que a narrativa adquire um interessantíssimo tom de thriller político sem deixar de esbanjar sua riqueza cinematográfica somada à indelével atuação de Gary Oldman.

Na trama, o ano é 1940 e as tropas de Hitler acossam dia após dia os territórios francos e belgas enquanto coléricos membros da oposição no Parlamento Britânico exigem a renúncia do negligente Neville Chamberlain (Ronald Pickup) de seu cargo a favor de alguém que seja, no mínimo, de maior atitude. A situação – e mesmo o receoso Rei George VI (majestosamente interpretado por Ben Mendelsohn) – quer o burocrata Visconde Halifax (Stephen Dillane, o Rei Stannis de Game Of Thrones) para ser o Primeiro-Ministro e, a partir daí, firmar o "tentador" tratado de paz com a Alemanha, mas é o controverso, desbocado e glutão Churchill quem assume a posição para, dentro do possível, preparar a nação para o terror iminente – algo que, por sinal, é bem ilustrado pelo diretor de fotografia Bruno Delbonnel (Harry Potter e O Enigma do Príncipe), que imerge Londres e arredores externos em trevas crescentes fazendo jus ao título original do filme em contraste com os aconchegantes tons de sépia dos interiores.


O que está em jogo no roteiro de Anthony McCarten (A Teoria de Tudo) é fazer Churchill perseguir uma jornada desde os seus primeiros dias em exercício, passando pelo chamado da Operação Dínamo (e seus resultados prévios) até o seu apoteótico discurso, mas até lá, passamos a acompanhar a rotina de um homem que passou da meia-idade e que não abre mão de comer e beber muito bem, além de tragar seu charuto e exigir que sua nova secretária, Elizabeth Layton (Lily James, que só tende a crescer enquanto uma provável nova Keira Knightley para o diretor), datilografe cada palavra na formatação precisa. Churchill também encontra tempo para galantear a esposa (vivida por Kristin Scott Thomas), ser carismático com quem lhe convém e impassível com seus opositores políticos e regimes totalitaristas. Informativa e intensa sem exaurir a atenção do espectador, que é recompensado com muitas doses de bom humor por parte de seu protagonista, a narrativa faz de Churchill mais do que uma figura patriótica, mas um sujeito por vezes imperfeito que, com seus olhos e ouvidos estudiosos, passa a buscar no povo a sua principal força. 

Se o roteiro nos é historicamente edificante com suas escusas ficcionais a parte e, acima de tudo, dá material de sobra para que Oldman brilhe ao entregar uma performance quase que definitiva e completa de seu personagem (em comparação com as recentes de Brian Cox em Churchill e de John Lithgow na série The Crown, sem se esquecer do cúmulo da caricatura que é Timothy Spall em O Discurso do Rei) onde a minuciosa maquiagem de Kazuhiro Tsuji (O Curioso Caso de Benjamin Button, Hellboy) é apenas um suporte em prol da verossimilhança, o diretor Joe Wright aproveita a confiança que tem no seu elenco para se dedicar em suas composições visuais rebuscadas. Ainda que pareça influenciado no estilo com que Steven Spielberg rege seus longas mais sérios e que (infelizmente) não repita feitos como seu belo plano-sequência na praia de Dunquerque em Desejo e Reparação, Wright não demora para colocar em cena seus movimentos de câmera elegantes que fluem entre corredores ou que vão de um subsolo com abrigados a um céu noturno sobrevoado por caças nazistas, resultando em raccords e sistemas de imagens inteligentes dignas de chamarem o filme de "cinema puro". O trabalho de som também é sensível, apesar de a exagerada trilha sonora de Dario Marianelli prejudicar a experiência uma vez que as vociferações do elenco já dão conta de introduzir o clima da narrativa.


Longe de soar panfletário ou patriótico ao mesmo tempo em que evita alguns clichês dos filmes biográficos, O Destino de Uma Nação (Darkest Hour) está mais para o espectador que prefere o conteúdo à ação, ainda que muito atice a vontade de (re)assistir a Dunkirk a fim de ter um maior panorama sobre o tema. É também um importante lembrete para a contemporaneidade que, diante das desinformações de meias verdades, muitas mentiras e fontes duvidosas, faz pessoas ao redor do globo acatarem discursos reacionários de supostos líderes enquanto nada mais são do que pretensos ditadores detentores da intolerância e do terror generalizados. Até que o mal seja erradicado e que a humanidade aprenda de vez a desprezar o que só alimenta o ódio, para início de conversa, "mobilizar a língua" e utilizar as palavras certas para afugentar a moral baixa aplicada sobre a nação já é, tal como fora para Churchill, uma grande vitória.



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