sexta-feira, 10 de março de 2017

Kong: A Ilha da Caveira | CRÍTICA


Se foi Méliès que deu asas à fantasia e à ficção científica nos primeiros anos de cinema, o King Kong de 1933 também tem seu mérito como mantenedor de gêneros tão prolíficos e influentes para tantos cineastas. Das várias releituras do macaco gigante produzidas de lá pra cá, faz pouco mais de dez anos desde que vimos a icônica criatura sob a recatada produção assinada por Peter Jackson, mas, para a alegria de muitos, não demorou para que os kaiju voltassem em plena forma nas mãos da Legendary Pictures, entregando Círculo de Fogo e Godzilla. Kong: A Ilha da Caveira, por sua vez, abandona a conhecida tragédia do personagem enquanto se lança numa aventura sem medo de assumir seus descomunais (e divertidos) exageros.

O ano é 1973 e parece que não havia época melhor para apresentar a nova história senão um conturbado período para os Estados Unidos e sua presidência envolta de escândalos, decretando também o fim da Guerra do Vietnã, e uma época onde satélites passavam a apresentar imagens completas de todo o planeta, assim revelando os últimos locais ainda não dominados pelo homem. Fatos que levam Bill Randa (John Goodman) e equipe de pesquisadores a uma arriscada incursão à chamada Ilha da Caveira, situado na provável área onde muitos pilotos e marinheiros combatentes se perderam durante guerras passadas, apontando aí evidências de monstros gigantes, algo que poderia ser de interesse do Governo – como ameaça ou arma. Precavido, Randa convoca o temporariamente desmotivado Coronel Packard (Samuel L. Jackson) e seu pelotão, além do agente britânico James Conrad (Tom Hiddleston), para garantirem uma ida e volta segura da ilha no Pacífico cuja tempestade que a circunda tão logo atestará que o incrível a seguir é algo muito maior e mais perigoso do que o esperado.


Virtuoso e eclético, Jordan Vogt-Roberts dirige seu Kong sem poupar detalhes enquanto movimenta sua câmera permitindo pontos de vista inusitados tal como bem têm feito os games de última geração. Numa evidente mistura de referências da linguagem do cinema americano com a energia gráfica dos animes japoneses, algo marcado também na encenação e na paleta de cores, Vogt-Roberts faz um filme que vai do mistério típico de uma aventura na selva à brutalidade bélica que não economiza em tiros e explosões, sem pudores ao apelar para o gore quando mostra sangue ou várias mutilações em tela. Se os pares de sunset shots que o diretor compõe enchem os olhos à primeira vista diante da escala do que se vê em tela, tão logo eles se tornam um pleonasmo narrativo para reforçar a estética do longa.

Ainda que todo esse capricho visual e as empolgantes sequências de ação façam o filme vingar, por outro lado, o roteiro assinado por Dan Gilroy (O Abutre), Max Borenstein e Derek Connolly (Monster Trucks, Jurassic World) faz de Apocalypse Now mais do que uma influência visual com sua atmosfera quente e sufocante, muito embora o texto seja mais superficial do que aparenta. Nas semelhantes trilhas por terras e rios, trocando vietcongs por aranhas, lagartos enormes e estranhas aves com bicos de serra, a ponto de render cenas aterradoras, a narrativa investe numa separação dos personagens na tentativa de elevar o suspense nesta ilha nada convidativa a humanos, mas o que se vê, bem no fim, é um grande trecho que só serve para retardar o clímax. 


Não que os atores sejam ruins, pelo contrário, mas quem se sobressai no meio disso tudo é John C. Reilly em uma performance caricata, mas instrutiva o suficiente para dar aos novatos as regras desse universo onde o inverossímil é a realidade, enquanto Samuel L. Jackson reforça a dureza de um militar que não se conforma com a falta de vitória no Vietnã, tomando uma motivação radicalmente abrupta demais. Dona de um sorriso lindo e talvez a figura mais humana ali, a fotojornalista de Brie Larson carece da importância narrativa tal como foi Naomi Watts no Kong de 2005 (em outras palavras, a donzela em perigo), relegada a fazer vários retratos do exotismo local sem que isso traga futuras consequências para sua personagem que, coincidência ou não, possui o sobrenome de uma das atrizes que tanto representou mulheres fortes no cinema contemporâneo.

Ademais, Kong: A Ilha da Caveira é um filme que surpreende por sua técnica a favor, novamente, de seu visual. Da trilha que é um deleite sonoro para aqueles que fazem questão de aumentar o som diante de um bom rock clássico, é divertido ver a montagem sincronizar as batidas lentas das hélices dos helicópteros no mesmo ritmo da "Paranoid" de Black Sabbath, somando aí vários planos de expressões faciais, cartuchos vazios de munição voando em câmera lenta, assim como os tantos movimentos circulares presentes na ótima sequência do bombardeio na ilha. A fotografia de Larry Fong (Batman vs Superman) também se destaca pela reflexão de luzes neon nos personagens na vida noturna oriental, sem contar a curiosa resolução de uma transição de tempo num escritório ou até mesmo pelo realce das cores ácidas das fumaças liberadas adiante. Para quem busca entretenimento bonito de se ver, certamente não fica perdido nessa ilha. 


Se de ecológico o filme traz conceitos escassos senão valendo a máxima do homem tornar inimigo aquele ou aquilo que se recusa a compreender, a sequência de abertura faz muito mais do que apresentar a criatura-título em um conflito inusitado entre um militar americano de pistola contra outro japonês portando uma katana. Disso, entre a fusão do melhor dos dois mundos, com seus estilos de técnicas e artes distintas, surge uma amizade elevando Kong a um status inédito e, se a cena pós-créditos consolida de vez a nova franquia começada aqui e em Godzilla, já não há dúvidas: monstros podem reexistir muito bem nos cinemas. Só lhes restam, no entanto, serem protagonistas totais de suas próximas histórias.




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