terça-feira, 28 de março de 2017

Eu, Daniel Blake | CRÍTICA


Do diretor “left wing” britânico Ken Loach, Eu, Daniel Blake venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes e Melhor Filme Inglês no BAFTA. Por meio do filme, Loach faz sua crítica ao Estado Social atual, mostrando como a racionalidade burocrática gera injustiças incontornáveis. Além disso, mostra que pessoas comuns podem manter sua humanidade diante de situações extremas.

Não é só no Brasil que o Estado Social dá sinais de desgaste. Como parece ser recorrente ao redor das democracias ocidentais, como o filme mostra na Grã-Bretanha, o walfare state, outrora esperança de redenção da humanidade, não suporta o ritmo que lhe é demandado. Com isso, o Estado cria barreiras para se resguardar. As barreiras são formadas primordialmente por uma aparelhagem burocrática excruciante. É esse pesado kafkiano que o personagem que nomeia o filme, Daniel Blake (Dave Johns), sente na pele.


Chamadas por telefone intermináveis, atendimentos robóticos com perguntas desnecessárias e maçantes, tratamento infantil por funcionários estatais etc. Todos nós já passamos por isso. Daniel lida com duas burocracias simultaneamente: não pode trabalhar, por uma condição médica no coração e também não pode receber o auxílio doença, porque lhe foi negado pelo Estado (mesmo com laudos e avaliações médicas expressamente declarando que Blake é inapto a trabalhar). O processo para recorrer da negativa é trabalhoso e difícil. Ainda mais dramático é o fato de precisar comprovar que está procurando emprego, como forma de garantir o seguro-desemprego.

Assim, passa pelo humilhante processo de ter que distribuir currículos, sem ter possibilidade de aceitar o emprego oferecido. Aliás, essa é uma das humilhações que Daniel sofre ao longo da narrativa. Além de ser tratado como uma criança por funcionários estatais, é obrigado a participar de workshops inúteis que ensinam o ridículo e não consegue preencher os formulários online, necessários para quase todos os procedimentos hoje em dia.

Isso é bastante paradigmático para o retrato que Loach pretende com sua película: seja porque a tecnologia substituiu e substitui cada vez mais pessoas no mercado de trabalho ou porque a produção tenha se deslocado para Ásia, deixando milhões sem labor no ocidente, atualmente vivemos a complexa tarefa de viver em um mundo onde cada vez as pessoas simplesmente não têm emprego. Essas pessoas passam pela delicada situação de terem trabalhado suas vidas inteira para ao final dela não terem o mínimo de condições financeiras adequadas.


Em uma das visitas a agência social, Blake conhece Katie (Hayley Quires); a jovem foi negado atendimento por um atraso de poucos minutos e Blake teve a coragem de tentar defendê-la. A partir desse primeiro encontro se desenvolve uma relação tocante de solidariedade. Katie foi expulsa de sua casa por fazer uma reclamação contra o locador, está desempregada e com dois filhos menores para cuidar.

Tão heróica quanto Drake, Katie passa por situações ainda mais humilhantes, como nas tocantes e tristes cenas no mercado público e na loja de conveniência. Como alento, a relação entre ambos é movida por um genuíno sentimento de companheirismo. Enquanto Drake ajuda financeiramente e com suas habilidades para trabalhos manuais, Katie serve como apoio emocional. De início, a relação deles parece um pouco forçada para fins narrativos, mas aos poucos a química entre ambos supera isso e torna tudo mais crível.


O filme alterna tonalidades areia com azul frio e neutro, ajudando a passar um sentimento de tristeza e melancolia. Além disso, os ângulos de filmagem são intimistas, criando mais empatia entre o espectador e o drama dos personagens. 

No ato final, Loach provoca uma virada dramática abrupta, o que incomoda; não é algo que diminui a experiência, mas com certeza pesa na hora de fazer uma avaliação. Algumas cenas poderiam ter sido mais cautelosas para não soarem tão melodramáticas quando soaram, como a cena que envolve a filha de Katie, Briana Shann (Daisy) e Blake em seu apartamento.

Contudo, Eu, Daniel Blake (I, Daniel Blake) é um filme muito relevante para os tempos atuais. Se as pessoas têm legítimo interesse em manter o progresso conquistado pela sociedade ocidental nas últimas décadas, devem ser sensíveis aos problemas apontados pela película. Ademais, a mensagem que fica é que as pessoas comuns, diante de situações extraordinárias, podem sim mostrar sentimentos nobres genuínos. 


O filme já está disponível nas plataformas NOW (R$11,90); VIVO PLAY (R$ 9,90); Google Play (Compra R$ 29,90; Aluguel R$9,90) e iTunes (Compra US$6.99;  Aluguel US$2.99).





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