domingo, 22 de março de 2020

A Pirâmide Humana | CRÍTICA



A Pirâmide Humana (La Pyramide Humaine, 1961) é um filme experimental. A frase por si só provoca uma desconfiança no público, pois é tênue a linha que separa a criatividade do mero diletantismo. Todavia, Jean Rouch, o cineasta por trás do projeto, vinha há alguns anos realizando filmes em países da África, os quais eram recebidos de modos controversos na França. Nesse país, seus filmes oscilavam entre o reconhecimento acadêmico (Jaguar) e a polêmica com esses mesmos intelectuais (Os mestres loucos). Contudo, sua sólida formação no campo da etnografia permitiu esse passo audacioso. A audácia que me refiro diz respeito a filmar estudantes negros e brancos do Liceu de Abidjan, capital da Costa do Marfim, em suas relações interpessoais durante as férias escolares. Parafraseando o que diz a cartela inicial do filme: quando essa brincadeira começou, Rouch filmou o desenrolar.
    
Antes do desenrolar, porém, o caráter experimental do filme levantou dúvidas até mesmo entre os jovens participantes, os quais o consideraram de início como algo “amador”. Essa desconfiança em relação ao seu amadorismo foi estabelecida por alguns motivos, dentre os quais vale destacar o fato de que nenhum deles (as) era ator e/ou atriz profissional. Da mesma forma, Rouch confessa a eles (as) que o roteiro do filme tem como característica a improvisação. A improvisação de Rouch, no entanto, não é aleatória, pois sua técnica de montagem é de primeira linha, tal qual um dos seus autores preferidos: Dziga Vertov. Ademais, Rouch tem algo a dizer com o filme. Pretende com ele mostrar ao mundo que as tensões raciais do período se potencializavam pela ausência de uma relação próxima com o outro, com o diferente.


Assim sendo, Rouch reúne estudantes brancos e negros numa sala improvisada e durante algumas semanas será o professor deles. Na mesma lógica de interpretar um papel diferente e/ou almejado (algo já testado em Eu, um negro), os jovens serão instigados a andar nos limites entre o vivido e o sonhado, o que deixa implícito a influência da vanguarda surrealista no filme em questão. Vanguarda tão importante para Rouch e do qual extrai o título “A pirâmide humana”, nome derivado de um aspecto de sua mise-en-scène, pois o estudante Jean-Claude lê na sala de aula o trecho de um poema de Paul Éluard. 

Rouch, logo após contar aos estudantes o seu projeto, provocará situações para que as tensões cotidianas se manifestem, por exemplo, incentivará flertes de uma jovem estudante francesa recém-chegada a Abidjan com estudantes marfinenses (negros) e estudantes franceses (brancos). Essa jovem estudante é interpretada por Nadine Ballot a qual, posteriormente, ganhará projeção com a atuação em outros filmes de Rouch, dentre os quais o aclamado documentário Crônica de um verão, de 1962. O cineasta francês também contribuirá para uma maior aproximação entre os grupos a partir do conhecimento de seus respectivos círculos de sociabilidades que extrapolam a instituição escolar, a qual se mostra no filme como insuficiente para se conhecer profundamente o outro. Desse modo, os estudantes brancos passam a participar das festas dos estudantes negros e vice-versa, o resultado dessa interação social nem sempre é conciliatória e por muitos momentos as diferenças resultam em insultos ou, ainda pior, numa naturalização da relação de exploração do branco sobre o negro, tal qual a cena em que eles leem notícias sobre o regime de Apartheid na África do Sul.


Jean Rouch, ao tocar em temas polêmicos que diziam respeito a algumas políticas adotadas pelo seu próprio país, o faz sem esquecer de que seus protagonistas são jovens que carregam dentro de si todos os sonhos do mundo e que almejam ter carreiras políticas brilhantes, serem músicos reconhecidos, serem capitães de navios, sociólogos, filósofos – grandes intelectuais. Daí seu empenho em dramatizar essa profusão de sentimentos, desejos e aspirações juvenis que eclodem bem diante dos nossos olhos e que nos confunde se não atentarmos para um detalhe: o filme em questão está no limite fronteiriço entre realidade e ficção, como disse, entre o vivido e o sonhado. Não é um e nem outro. É uma etnoficção alcançada pelo cineasta por meio de seu processo de montagem, por sua mise-en-scène, por sua criatividade artística e por suas técnicas desenvolvidas no campo etnográfico. É o filme em que Rouch abre sua caixa de ferramentas e as usa com intensidade.


Como mencionei, Rouch tem um interesse, mas não é necessariamente o de produzir um filme, pois, segundo ele, pouco importa se ao final de todas as gravações esse filme existir. O que interessa, sobretudo, é o que se passou em torno da câmera durante as férias escolares. Jovens estudantes, com nacionalidades, culturas e cores diferentes, que frequentavam o mesmo Liceu, mas não se conheciam de fato, pois mantinham uma distância significativa uns dos outros, consolidada por uma desconfiança estrutural, passaram a andar juntos. Foi a realização conjunta do filme a principal responsável por se conhecerem melhor, inclusive os defeitos do outro. Isso levou a se respeitarem e a se amarem. Uma amizade que nasceu do filme e que permitiu a esses jovens se desvencilharem do racismo tão comum naquele contexto. 

A pirâmide humana é um projeto de 1959, lançado em 1961, mas que tem tanto ainda a nos dizer.
   


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