quinta-feira, 12 de março de 2020

O Oficial e o Espião | CRÍTICA


O Oficial e o Espião chega ao Brasil com um retrato em chamas. Inflamado muito por conta da repercussão dos protestos realizados assim que o diretor Roman Polanski ganhou o prêmio de Melhor Direção no César (a premiação, diz-se, máxima do Cinema Francês), paira também uma denúncia (fomentada mais entre seus boicotadores) de que o veterano cineasta teria encontrado nesta história baseada em fatos reais um argumento para amenizar os crimes de seu passado. Nesta resignação de culpa de personagem e diretor, entretanto, prevalece um conivente apontamento do quanto o preconceito e a corrupção seguem, infelizmente, atemporais.

Escrito por Robert Harris (O Escritor Fantasma, também dirigido por Polanski) em parceria com o diretor a partir do seu próprio romance inspirado em eventos verídicos, J'Accuse é um extenso compilado sobre a condenação do capitão Alfred Dreyfus que, mesmo se declarando inocente, é acusado e exilado pelo crime de traição em janeiro de 1895. Ainda se tivesse aliados no corpo do exército, a sua condição de judeu pouco lhe favorece – para a maioria totalitária, é ótimo que o estado se livre de gente assim. Recentemente promovido a coronel e então instrutor da academia onde Dreyfus era um convencido aluno, Georges Picquart passa a comandar a unidade de contra-inteligência da França e percebe que há muito a ser feito além de trocar um idoso e sonolento guarda da recepção.

(Califórnia Filmes/Divulgação)

Nesta longa digressão do Caso Dreyfus, Polanski investe em diálogos longos, mas é astuto ao nortear a aristocracia francesa tão segura em seu discurso reacionário que até parece que pouco mudou na sociedade ocidental em 120 anos. Diretor habilidoso na construção de uma atmosfera narrativa, o clima realmente não se faz esperançoso - a melancolia do tempo nublado faz com que os homens ao redor de Picquart sejam ríspidos, dúbios e que podem se tornar tempestuosos num instante. Ao passo em que Louis Garrel (Adoráveis Mulheres, O Formidável) fica com seu Dreyfus mais como um personagem quase omisso ao longo da trama, é Jean Dujardin que, notavelmente carismático e competente diante de um assunto tão circunspecto, mantém e guia nosso interesse preso pela trama que percorre anos a fio e revelando as "rudimentares" técnicas de investigação (daí a participação de Mathieu Amalric como grafologista) da época, sem se esquecer da relação "interessante" que tem com Pauline, uma mulher casada interpretada por ninguém menos que a musa do cineasta, Emmanuelle Seigner (Baseado em Fatos Reais).

(Califórnia Filmes/Divulgação)

Pouco a pouco, compreendemos que o propósito de Polanski para com O Oficial e o Espião vai muito além de fazer um mero filme de época requintado com a trilha (regular) de Alexandre Desplat. O seu paralelo, desde os primeiros minutos no prólogo, vai de casual a incisivo: num tempo em que judeus eram minoria no exército francês e que, desde então, já eram alvo de piadas como a estereotipada cobiça por jóias, a representação do antissemitismo é crescente. Da vontade de incriminar uma pessoa apenas por suas ideologias ao emprego de violência destruindo estabelecimentos e queimando livros, Polanski já mostrou aonde tudo isso chegaria em outro país quatro décadas depois com O Pianista – diferente da Alemanha, só faltou mesmo à França um influente autoritário para incitar os cidadãos darem continuidade nessa política de ódio.

Escritor Émile Zola é personificado em parte da trama. (California Filmes/Divulgação)

Tornando-se brevemente um fervoroso filme de tribunal, mas aterrorizante em suas analogias sobretudo na atualidade de uma fala de um oficial adoentado, mas agressivo o suficiente para proferir que minorias como estrangeiros e judeus causam a "degeneração de nossos valores morais e artísticos" (algo que um secretário de pasta ou qualquer manifestante de domingo poderia soltar por aí), é admirável que Roman Polanski esteja lúcido e nos entregue outra obra pensante. Que seja contestado, mas que nunca deixe de usar o cinema como cenário para essas e próximas reflexões.







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