quinta-feira, 18 de abril de 2019

A Maldição da Chorona | CRÍTICA


Que o Cinema de Horror se sustentou de narrativas oriundas de romances literários ou da genialidade/mediocridade de roteiristas ao longo das décadas, não há como discordar do impacto que muitos contos difundidos por folclores regionais causaram em gerações tanto quanto aquelas narrativas projetadas e que igualmente façam parte do imaginário popular. A partir da lenda mexicana que virou mote para filmes locais – e até episódio de Chaves! –, A Maldição da Chorona tem seu típico tratamento hollywoodiano que garante um pavor crescente ao abraçar o absurdo com um roteiro conciso sem pretensões intelectuais.

Reza a lenda que, séculos atrás, uma mulher afogou os seus próprios filhos que eram o bem mais precioso de seu amado em um ato de vingança por ser traída com uma mulher mais nova. Arrependida e aos prantos, ela teria cometido suicídio por afogamento, mas tamanha calamidade lhe tornou uma entidade maligna incapaz de ter o descanso eterno, vagando e fazendo novas vítimas (ou, mais precisamente, crianças) que dessem ouvidos à sua lamúria. Na Los Angeles de 1973, Anna (Linda Cardellini) é uma mãe de dois filhos que tenta se adaptar à ainda recente rotina de viúva em meio a uma correria que envolve o amparo a outras famílias. Trabalhando como assistente social, Anna se encarrega do delicado caso da atormentada Patricia (Patricia Velasquez), que há dias mantém seus filhos trancafiados e sem ir para a escola por motivos que a profissional se diria completamente cética – até hesitantemente ver acontecer em seu próprio lar momentos de horror proporcionados por aquela que chamam de "La Llorona".

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Dirigido por Michael Chaves, egresso de curtas do gênero e encarregado a dirigir Invocação do Mal 3, é válido ressaltar como o diretor trabalha a questão do ceticismo uma vez que seu cenário é praticamente desprovido de elementos sobrenaturais, coisas que haviam de sobra em A Freira e apresentado de antemão nos longas de Annabelle e de Invocação do Mal. Aqui, a investigação policial baseada na razão é o que norteia a narrativa, apesar de as primeiras aparições da Chorona para as crianças tanto no albergue como no carro se fazem deveras competentes pela operação de câmera de Michael Burgess em admiráveis e sinistras composições fotográficas, tal como a habilidade técnica de efeitos especiais e a tensão amplificada pela montagem.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Se as artimanhas do filme parecem sensacionais a princípio (o plano-sequência que introduz a família de Anna não só é ilustre por seu manejo, como traz uma inventiva cena justaposta de uma ficha datilografada que parece refletir sobre o que foi visto anteriormente), tão logo caem no cacoete do efeito "pegadinha do Silvio Santos". Não tarda para que os sustos se tornem previsíveis, tudo porque os violinos histéricos da trilha sonora de Joseph Bishara já prenunciam os planos contendo vários jump-scares com a Chorona sempre surgindo dos cantos, diálogos medianos e até mesmo a direção de atores não é lá aquelas coisas, salvo o esforço de Linda Cardellini e o elenco infantil – este, o principal responsável pelas reações de horror.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)


A escalação de Raymond Cruz (o Tuco de Breaking Bad e Better Call Saul) também parece um corpo estranho ao longa, ainda que seu personagem seja importante na resolução do conflito. Comumente marrento, coube ao ator interpretar Rafael, um curandeiro de semblante sereno e que não tarda em se revelar um tanto quanto… mambembe, ainda mais diante da ameaça à espreita. No entanto, é interessante apontar que é justamente essa característica de "exorcista despreparado" que rompe com o estereótipo clássico no gênero, lembrando que até mesmo o casal Warren interpretado por Patrick Wilson e Vera Farmiga se revelou suscetível a falhas em suas narrativas.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação

Trazendo um plausível contexto implícito ao demonstrar um baixo moral do país, a ineficácia/recusa da Igreja em tratar de assuntos sobrenaturais e, principalmente, além de revelar a árdua insurgência das mulheres no comando do lar e do trabalho naquela década, A Maldição da Chorona (The Curse Of La Llorona) já é, excetuando suas ressalvas, um bom adendo ao universo de Invocação do Mal sem mesmo precisar de inúmeras referências do mesmo para sustentar seus arrepios.



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