quinta-feira, 21 de março de 2019

Nós | CRÍTICA


Vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original por Corra! em 2018, o então comediante Jordan Peele se tornou um dos nomes mais interessantes para se acompanhar em uma Hollywood tão fissurada em manter franquias de adaptações (ainda que o cineasta esteja por trás da versão repaginada de The Twilight Zone para a televisão), se destacando com um texto que demonstrava uma sagacidade ímpar de seu cineasta ao utilizar alegorias na exposição de um preconceito vigente nos Estados Unidos. Em Nós, Peele tece uma crítica ampla ao expor uma nação consumida pelo seu excesso de vaidades.


Com uma narrativa simplória, porém repleta de detalhes que não devem passar despercebidos, o longa acompanha as férias de uma família na costa californiana, embora Addy (Lupita Nyong'o) seja contrária à ideia de visitar Santa Cruz pela razão escusa de um trauma de infância em 1986 (como se acompanha no instigante prólogo), mas Gabe (Winston Duke) quer aproveitar o descanso para desfrutar sua "nova" lancha e seus filhos, a pré-adolescente Zora (Shahadi Wright Joseph) e Jason (Evan Alex) pouco se importam com a estadia monótona, concentrados, respectivamente, no celular e em brincadeiras. Ao se encontrarem com o (fútil) casal de amigos na praia, Kitty (Elisabeth Moss), Josh (Tim Heidecker) e duas filhas gêmeas, Addy avista detalhes macabros do seu passado, algo que viria se intensificar horas depois quando quatro sombrias duplicatas dos membros de sua família surgem à espreita, levando-os a uma noite de horrores e a uma revisão de fatos e dos próprios defeitos.

(© Universal Pictures/Divulgação)

Revigorando sua habilidade de equilibrar o terror (físico e psicológico) com certeiros elementos cômicos (concentrados na figura de Duke), Peele eleva também as capacidades expressivas de Nyong'o (se você já admirava a atriz, prepare-se para se surpreender mais um tanto!) e até mesmo de Elisabeth Moss, que faz muito com o cirúrgico tempo de tela que tem, ao passo em que o diretor concilia toda essa insana experiência com músicas populares selecionadas a dedo e uma ou outra boa referência fílmica que vem a calhar. No entanto, a gana do roteirista em constantemente expandir a mitologia acaba rendendo alguns furos e até mesmo inconsistências que se agravam ao longo da trama.

(© Universal Pictures/Divulgação)

A começar pelas características sucintas das personagens, o texto não confere oportunidades de facetas para o trabalho do elenco salvo o caso da protagonista, rendendo ocasionalmente dinâmicas cujo principal motivo parece ser a extenção da duração de Us (título original). Quisera ser, então, uma parábola moderna sobre os pecados capitais como a vaidade e a preguiça, Peele vai deixando a confabulação e o surrealismo de lado para atribuir razões sociais e científicas para a aparição das sombras que acarreta num terceiro ato que perderia toda a irreverência da narrativa com uma longa explicação verbal se não fosse a excepcional soma da fotografia (caprichada no uso de split-focus e planos em contra-luz), montagem e trilha sonora de Michael Abels em uma sequência intensa, porém de resolução polêmica.

(© Universal Pictures/Divulgação)

Pensando no sucesso que o figurino desenhado por Kym Barrett (Aquaman, Matrix) deve fazer no próximo Halloween e que o filme tem de tudo para ser considerado um suspense inteligente, mas inapto para ter sua temática considerada inédita ou, num termo mais forte, genial. Doppelgängers dificultam as vidas de protagonistas há anos no Cinema e na TV (há exemplo melhor do que Twin Peaks?), a reinterpretação de Jordan Peele é mais do que válida ao sugerir que, por qualquer descuido, o que há de pior em Nós (com o perdão do trocadilho…) pode prevalecer.



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