quarta-feira, 7 de março de 2018

Os Farofeiros | CRÍTICA


Existe um senso-comum entre os brasileiros de que o final de ano precisa ser uma época de total relaxamento a fim de se bem dispor para outros doze meses por vir e suas chances de serem bons ou ruins (variando em suas intensidades) e que o cenário ideal para tal descanso nada mais é do que ir pra praia e tomar merecidos banhos de sol e de mar, além daquela cervejinha gelada debaixo do guarda-sol. Porém, entre a pressa de arranjar as cerimônias e tudo o mais que acontece em dezembro, algumas coisas são resolvidas de última hora e muitas vezes sem mesmo checar suas devidas procedências, o que faz Os Farofeiros do novo filme de Roberto Santucci entrar em várias roubadas enquanto pretende divertir seu público à beça.

Na trama, Alexandre (Antônio Fragoso) acabou de ser promovido por sua chefe, prestes a se mudar para a filial paulista, e cabe a ele a tarefa prévia de ter que demitir um de seus três colegas de empresa diante da crise financeira, sendo eles o tagarela Lima (Maurício Manfrini, o Paulinho Gogó de A Praça É Nossa), o especulador Rocha (Charles Paraventi) e o introvertido Diguinho (Nilton Bicudo), que somam anos na empresa e parecem viver num clima de competitividade amenizado pelas solenidades do coleguismo. Casado com a recatada Renata (Danielle Winits), há tempos Alexandre leva no automático a relação com a esposa, que nada mais quer do que um lugar aconchegante como Búzios para passar a virada em alto-astral, mas na correria de final de expediente, o mais novo gerente recorre a Lima (e seus contatos de "zapp"…) para conseguir o aluguel de uma casa a tempo das festividades. Chegando lá (depois de muito trânsito e sacolés), porém, a turma toda se vê na mais paupérrima das casas de praia, digna de uma matéria do Fantástico.


O que talvez seja o filme mais assumidamente escrachado de Santucci (que também fez Um Suburbano Sortudo e De Pernas Pro Ar), Os Farofeiros resume com tremenda verossimilhança as férias de verão de muitos brasileiros com uma série (extensa) de incidentes de altos e baixos que o público afim há de encontrar a gargalhada nas trapalhadas das quatro famílias em deixar a casa no mínimo mais habitável, no conflito de classes entre as personagens de Winits e Cacau Protásio (que também roubava a cena em Gostosas, Lindas e Sexies), na tortuosa jornada até a praia, no atual excesso de meninos chamados Enzo e nas demais especulações sobre os tipos sarados. Nisso, a toda fitness Aline Riscado também faz bonito no que lhe é cobrado em atuação, diferente de seu par romântico que põe o ritmo da comédia em risco.


Excetuando alguns momentos ora supérfluos (os mosquitos cartunescos digitais e falantes, um ou outro drama familiar que a trilha não ajuda a melhorar, as piadas batidas com o "cara bonito demais que só pode ser gay") ora falhos (a mixagem de som deixa escapar a artificialidade dos diálogos gravados na pós-produção), o longa arranca o riso toda a vez em que Danielle Winits decide exagerar pra valer (a obsessão com o cigarro eletrônico, os surtos com o protetor solar vencido, o acidente na piscina) e quando alça quebrar a fórmula das comédias nacionais que tantos ainda desdenham por aí, daí a importância da reflexão gerada na cena do cinema. Visando a graça do público, o filme é criativo ao criar um epílogo que instiga a curiosidade em saber quem, afinal, foi demitido por Alexandre e, por mais que a narrativa se esquece que é o personagem de Manfrini que faz jus ao título, certamente, Os Farofeiros vai entreter o pessoal (do pobre ao rico, sem exceções) que, mesmo já no final da estação, terá mais uma chance de reviver – e se identificar – com essas loucuras que só acontecem no verão.



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