quarta-feira, 19 de abril de 2017

Gostosas, Lindas e Sexies | CRÍTICA


Gostosas, Lindas e Sexies segue a onda recente de filmes protagonizados por mulheres que fogem dos padrões comuns de beleza e munidas do girl power que se sobrepõem ao machismo e ao bullying aturado no dia-a-dia, tendo como recompensada final a liberdade individual de corpo e pensamento. Nesse ínterim, despontaram títulos como Descompensada, Como Ser Solteira, Perfeita É A Mãe! e até a filmografia de Melissa McCarthy é digna de ser levada em conta por seus recados dados aos conservadores bem recorrendo a comédia ao invés de ficar apontando apenas os defeitos da sociedade. Sendo assim, o filme dirigido por Ernani Nunes se sustenta em um balanço regular de acertos e erros onde suas quatro protagonistas mais querem se divertir e se auto-afirmar.

Beatriz (Carolinie Figueiredo), Tânia (Lyv Ziese), Ivone (Cacau Protásio) e Marilu (Mariana Xavier, de Minha Mãe É Uma Peça) são amigas inseparáveis e cúmplices umas das outras, unidas para comer, beber e bailar, além de manter sempre em dia o papo sobre suas últimas aventuras (ou desilusões) amorosas e sexuais, mantendo a cabeça erguida e orgulhosas de usar manequim plus-size. Entretanto, sumariamente acompanhamos a rotina de Beatriz, uma redatora de uma revista de "boa forma", blogueira nas horas vagas e aspirante a escritora de romances femininos, transcrevendo sua auto-estima para as leitoras virtuais enquanto a situação em casa com o namorado Daniel (André Bankoff) parece desgastada diante dos vários compromissos de ambos, além de que ela se sente cada vez mais seduzida pelo galante fotógrafo argentino que, por sinal, é seu colega de empresa e também recebe muitos olhares femininos por onde passa, seja no escritório ou na badalada festa do décimo aniversário da milionária rede de salões de beleza de Ivone.


Dispensando problematizações, algo que muitos(as) realizadores(as) brasileiros têm enfatizado apenas por motivos cosméticos, Gostosas, Lindas e Sexies já chama a atenção pelo seu bom e pouco conhecido elenco principal que sustenta boa parte da graça que surge nas várias cenas do filme, e é digno de nota como Nunes opta em rodar a ação em planos longos ao invés de desnecessariamente picotar na edição com tantas tomadas televisivas onde o close ainda é regra em muitas comédias nacionais, escolhendo também pontos de vista inusitados para registrar as moças em seus devidos cotidianos – e vê-las diante de espelhos sem receios de encarar suas curvas é emblemático o suficiente. Por outro lado, os diálogos clichês ora vulgares ora nada coloquiais do roteiro, somados às marcações duras de algumas atrizes coadjuvantes e alguns enquadramentos obtusos, deixam a experiência mais cansativa do que aparenta, ainda mais com o contingente de personagens terciárias com suas funções narrativas mínimas.


Então, quando parecia se tratar de uma obra subversiva, quebrando os tabus tão impostos às mulheres, acaba que o longa não atende ao empoderamento feminino esperado e fica à mercê da heteronormatividade onde a maior recompensa é ter um homem para si, reforçando o culto a galãs feios e ainda deixando escapar um tom homofóbico, explícito na representação histérica do "gay afeminado" da geladeira e na "estranheza" sentida pela personagem Tânia ao ser cantada por uma colega de teatro. São problemas dispersos que até podem passar despercebidos, mas, num todo, comprometem o que estava divertindo e dando certo no filme.



Com participações especiais de Paulo Silvino, Márcia Cabrita, Eliane Giardini e Marcos Pasquim, fica evidente que Gostosas, Lindas e Sexies se estrutura de forma serial buscando uma futura maior abertura na televisão, caso os incidentes não sejam resolvidos com o mesmo redundante discurso de assumir o físico nada magérrimo. Como filme, resta saber se o público feminino (em especial, a parcela considerada "acima do peso") se sentirá representado ou diante de uma fábula até que engraçada, mas que precisa recompensar suas protagonistas com príncipes encantados.




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