quarta-feira, 26 de julho de 2017

Em Ritmo de Fuga | CRÍTICA


É inegável que o cinema vive uma perspicaz temporada sonora nos últimos anos. Mad Max: Estrada da Fúria fez o público testemunhar uma excepcional montagem rock n' roll nos conduzindo por perseguições e fugas no deserto. Os dois Guardiões da Galáxia trouxeram deliciosas mixtapes em cenas divertidas com seus personagens embalados pelos hits de mais de trinta anos atrás. La La Land resgatou o bom gosto pelos musicais com uma narrativa apaixonante e, cada vez mais, trailers são feitos seguindo à risca as batidas das canções promovendo um conteúdo pra lá de enérgico, mas acabam sendo muito melhores que o resultado final. Por sua vez, Baby Driver (título original) segue na rota de sucesso dessa tendência musical ao provar que é capaz de projetar um bom entretenimento original e de fazer manobras estonteantes na pista.

Inspirando-se no passado sem parecer saudosista demais, Edgar Wright escreve e dirige Em Ritmo de Fuga com a mesma irreverência de todos os seus longas anteriores, sempre apto a lançar uma piada inteligente verbal ou visual nos momentos certos. Com uma trama simples que se excede apenas por alguns flashbacks, Wright nos coloca como cúmplices de Baby (Ansel Elgort), um motorista capaz das mais deslumbrantes fugas nas ruas de Atlanta a serviço de Doc (Kevin Spacey), um chefão do crime que coordena assaltos a bancos sempre com equipes, métodos e disfarces diferentes – exceto o próprio Baby que, tido como um fator de sorte para o mafioso, se mantém fixo na gangue. Só que o garoto, interessado na brejeira garçonete Debora (Lily James) e tentando seguir os conselhos do seu pai adotivo, tenta se manter na linha a todo o custo, mas nessa vida bandida, olhar nos espelhos retrovisores é mais do que crucial.


Munido de um ótimo elenco (some aí Jamie Foxx, John Hamm, Jon Bernthal e até mesmo o baixista Flea) e uma playlist de muito bom gosto musical, Wright faz da primeira hora de Baby Driver uma das melhores coisas já vistas no cinema em 2017 ao decupar as cenas de forma tão criativa seguindo à risca cada batida, verso e gênero das canções, utilizando-as muito além da mera função transicional dentro da narrativa. São as vibrações das músicas que conectam o rapaz ao pai adotivo surdo-mudo, são as letras do seu nome cantadas por acaso por Debora na cafeteria que o incitam a uma paixonite desafiadora, é a duração de cada faixa no seu iPod que determina o tempo para o roubo e a consequente fuga – e se os capangas tardam a sair do carro, a música tem de recomeçar. Só assim Baby é capaz de realizar as manobras fenomenais que, aliadas à excepcional edição de Jonathan Amos e Paul Machliss (ambos egressos de Scott Pilgrim Contra o Mundo), não vão deixar nenhum espectador entediado tamanho espetáculo.



Todavia nada prejudicial à experiência, o que aborrece mesmo é a reiteração de diálogos entojados principalmente quando Baby se preza a falar ou na cansativa sequência onde a última equipe formada não pode se separar, estipulando um suspense pouco criativo (ou talvez seja por questões de orçamento), culminando em um clímax mais violento do que o esperado, o que não quer dizer que não será recompensador ou divertido. Até mesmo nos encalços finais e nos tiros sincronizados com a trilha sonora, é bem difícil se decepcionar com o filme que, diferente de duas franquias bilionárias que também colocam automóveis em situações mais e mais absurdas, recorre a outros ricos elementos cinematográficos do que a mera ilusão de que velocidade em cena se resume a picotes breves ou previsíveis usos de slow-motion.

Do impagável remix "Was he slow?", da artística e apaixonante cena numa lavanderia ao infame mal-entendido sobre máscaras de Halloween, Em Ritmo de Fuga pode até ter derrapado em alguns momentos, mas não é cedo demais para afirmar que o título já tem seu lugar reservado entre os grandes filmes de assalto ou perseguição-e-fuga lançados nos últimos cinquenta anos, proporcionando um resgate cultural a todo bom cinéfilo ou fã de um belo musicão que, certamente, estará nas playlists de muita gente por aí.




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