quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

La La Land - Cantando Estações | CRÍTICA


De volta a 2015, Whiplash parecia um filme incomum diante de seus vários concorrentes no Oscar, boa parte deles compostos pelos mesmos dramas enfadonhos de fórmula pronta ou pelo impacto temporário de seu valor de produção, todavia digno de reconhecimento. Ganhador de três merecidas estatuetas douradas, o filme assinado pelo jovem Damien Chazelle se provou um dos títulos mais enérgicos da temporada justamente por sua narrativa e técnica atualíssimas, além de estimar uma promissora carreira ao diretor e roteirista. Um fato mais do que comprovado na excelente experiência cinematográfica vista agora em La La Land - Cantando Estações.


Ao contar a energizante história de Mia e Sebastian (respectivamente, Emma Stone e Ryan Gosling), Chazelle preza por uma narrativa descomplicada que, sob uma ótica preconceituosa, daria a entender que se trata apenas de mais um musical prestes a apresentar pomposas coreografias e canções de tons estridentes escondendo um enredo simplório, ou apenas mais um filme que se regozija na idolatria da Era de Ouro hollywoodiana. Fato é que não faltam referências aqui e acolá nos cenários, nas ações e nos diálogos, mas La La Land vai além da homenagem e segue por uma pista contrária, todavia certeira e acessível a todos os públicos – dos cinéfilos que já mantinham boas expectativas aos que por acaso se interessaram pelo conjunto audiovisual que é, no mínimo, altamente satisfatório, conquistando e prendendo a atenção de quem estiver assistindo logo em seu primeiro e contagiante plano-sequência.


Tudo começa em um viaduto congestionado a caminho de Los Angeles. Apesar de ser inverno (e aqui as estações serão de importância narrativa, assim prevista pelo subtítulo brasileiro), faz um dia de sol na Califórnia e o som se faz presente entre os veículos que compõem um engarrafamento. Tão logo uma sinfonia marcante (assinada por Justin Hurwitz) dá as notas para uma canção ser entoada pelos motoristas e passageiros ali presentes; os versos falam do poder da experiência cinematográfica na escolha de suas vocações e ali os jovens estão, sem pestanejar, decididos a correrem atrás de seus sonhos. Até lá, porém, nem tudo é como se espera...

Trabalhando num café no parque de estúdios da Warner, Mia se dribla entre afazeres pulando de teste em teste para qualquer tipo de papel disponível, mas a concorrência é tão alta quanto o desinteresse dos agentes de casting. Terminantemente aficionado pelo jazz de raíz, o que faz com que reclame da cena atual do gênero entre o crescimento de outros estilos efêmeros, o tecladista Sebastian almeja resgatar o radical som de outrora sem perceber que, como vem a dizer seu velho amigo interpretado por John Legend em um momento específico do filme, é preciso quebrar o viés tradicionalista em prol do futuro. Um conceito que não só serve de motivação paralela para Seb, mas como para o próprio Damien Chazelle em sua empreitada, comprovando uma admirável evolução como diretor e roteirista desde seu último longa. 


Um olhar. Um toque. Uma dança.




Entre cenas que se abrem e fecham em transições de íris, das réplicas de movimentos de câmera de um certo filme estrelando James Dean no Griffith Observatory, passando pela reverência ao passado glorioso do jazz e do cinema, a decupagem positivamente econômica de Chazelle chama a atenção pela sua criatividade ao sustentar a ação dos personagens em planos longos aproveitando-se do espaço dos cenários para aproximar ou recuar a câmera de acordo com o que se sucede em cena. Enquanto as peças musicais cantadas e coreografadas com os pés no chão divertem e tão logo convergem para uma carga maior de emoção onde segurar o choro (ou não) se torna perfeitamente normal, o diretor faz o som transitar dentro e fora da diegese revelando contracampos de situações engraçadas vide a festa tocando um clássico do A-ha ou quando as notas tocadas no piano dão asas à imaginação da dupla. Um conjunto de cenas práticas bem fotografadas por Linus Sandgren que apresenta mais do que o glamuroso look da película em Cinemascope ou o belo realce do céu turquesa diante da geografia de Los Angeles, mas curiosos recortes e dimerizações de luzes que focam nos protagonistas em seus respectivos momentos de brilhar, em especial, Emma Stone no auge de seu carisma.

Enquanto uma fábula sobre o cinema da indústria de sonhos e os tantos aspirantes da cena artística de Los Angeles, exultando sua cultura pelas ruas filmadas, o longa ainda nos é contemporâneo e passa a ser muito mais do que um filme romântico como tem sido sua campanha de divulgação por aí. A partir do momento em que presenciamos as ambições das personagens serem levadas com descaso e/ou com portas fechadas, tendo que criar as próprias oportunidades sem muitas garantias de retornos ou ainda a necessidade de se apegar a qualquer coisa em prol da sobrevivência, abdicando ou adiando os próprios sonhos, vemos ali um retrato de uma juventude universal que, uma hora ou outra, já figurou como seriam suas vidas caso escolhessem caminhos ou vocações distintas.



Assim sendo, que a música, o cinema e a arte, em geral, continuem nos promovendo este encantador misto de emoções como vivenciado em La La Land, onde cantar e dançar, ou partir para a sessão de um bom filme, são os melhores meios de escapar da entediante rotina do verossímil ou para tempos difíceis. E não é tolice nenhuma pensar e sonhar desse modo.



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