sexta-feira, 24 de março de 2017

Power Rangers | CRÍTICA


Alegria matinal de uma geração que hoje se prova uma das mais assíduas consumidoras de cultura pop, a série dos Power Rangers se caracterizava por enredos simples, divertidos e com vilões caricatos, sem receios de seus exageros inverossímeis. Fórmula de sucesso que conquistou a garotada da época e também encheu os caixas das lojas de brinquedos, novas fases foram apresentadas ao longo dos mais de vinte anos da franquia, mas toda a fantasia mambembe passou a ceder espaço para uma generalização já desinteressante aos olhos de um público sedento por novidades. Como, então, atualizar algo tão singular sem perder a sua essência e o apreço dos fãs que, como sempre, esperam qualidade e respeito ao que preservam com tanta estima na memória?


Continuando nas mãos do produtor Haim Saban, o novo Power Rangers dirigido por Dean Israelite preza pelo desenvolvimento de personagens que funcionou tão bem em Star Wars: O Despertar da Força para introduzir os novatos Jason (Dacre Montgomery), Kimberly (Naomi Scott), Billy (RG Cyler), Trini (Becky G.) e Zack (Ludi Lin) de uma forma bastante inclusiva que não tarda a gerar empatia com o público ansioso para se identificar com os personagens na tela e fazer parte da ação. Não que diversidade fosse um problema no seriado, mas aqui o roteiro assinado por John Gatins (mais as oito mãos do argumento) trata a inclusão propondo uma camada de pluralidade que não se contenta com o mero e confiante tipo heróico. 



Seja o promissor atleta que põe tudo a perder, a "amiga" que espalha fotos comprometedoras desconsiderando a gravidade disso, o autista nerd que compensa na geologia a falta de amigos e do pai falecido, a rebelde que não se encaixa nos rótulos ditados pelos pais conservadores ou o filho que deixa de ir à escola a fim de cuidar da mãe enfermiça, estes jovens buscam a autocompreensão acima de tudo, mas para isso – e para a "hora de morfar" – é necessário um intenso exercício de alteridade.

Desse inesperado chamado para a aventura, onde as manhãs de sábado na sala de detenção são entediantes (é evidente a semelhança com O Clube dos Cinco), os futuros Rangers passam a ser instruídos por Alpha 5 (Bill Hader, dando voz e movimentos ao robozinho) e Zordon (Bryan Cranston sendo mais do que um imponente holograma na parede) em uma base alienígena soterrada há milhões de anos, impondo aos jovens o prazo de 11 dias para se tornarem os heróis cuja responsabilidade é de proporção galáctica. No meio desse árduo treinamento, há quem esteja ali se divertindo e outros que só veem tudo isso como um fardo a mais além dos problemas corriqueiros em casa ou no colégio.



Se os designs alienígenas dos uniformes e da base lembram o que foi visto em O Homem de Aço e que tão logo a promessa de ação mais remeta a um Quarteto Fantástico do que um longo episódio da série, carente de uma melhor quantidade e montagem das lutas (falta impacto emocional na junção do Megazord), é Elizabeth Banks que rouba a cena com sua radiante caracterização da vilã Rita Repulsa. A começar por seu aterrorizante surgimento que resulta numa fome por ouro, a atriz sabe dosar seu conhecido lado cômico enquanto acresce os conflitos aos jovens adversários, dispensando insanos métodos de atuação. Vale ressaltar também o curvilíneo figurino da nefasta que, muito além do brilho ostensivo, acresce feminilidade e agilidade diferindo da sua clássica apresentação.



Ora excedendo expectativas, ora não cumprindo outras, a verdade é que Power Rangers cumpre sua tarefa de introduzir uma mitologia revigorada ao que já era conhecido pelos fãs, vingando mais por seu plausível retrato da juventude atual e entregando aí cenas que são bonitas de se ver graças ao bom entrosamento do elenco. Além disso, o instigante prólogo demonstra o quão promissor o material pode ser futuramente caso bem executado e sem cair no recorrente desequilíbrio de atribuir atmosferas sisudas ou atirar piadas para todos os cantos.

Que a empolgação, portanto, dure mais que os breves "Go, go, Power Rangers" ecoados na eclética trilha sonora.



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