quinta-feira, 30 de março de 2017

O Ornitólogo | CRÍTICA


O Ornitólogo (L'Ornithologue, no francês), mais novo filme do aclamado cineasta português João Pedro Rodrigues, coproduzido por Brasil, França e Portugal, estreia pelo projeto Sessão Vitrine Petrobras trazendo consigo toda a glória e consciência linguagética presentes em um dos cinemas mais estimulante e devir-subversivo da contemporaneidade. O filme é, pois, mais uma amostra de como os portugueses sabem fazer cinema, levando sua linguagem aos limites do dispositivo em prol de uma narrativa não puramente dramática, mas sobretudo sensorial e (re)inventiva.


Fernando (mais tarde, Antônio, ambos interpretados por Paul Hamy) é o ornitólogo, estudioso de aves que procura por cegonhas negras ao norte de Portugal quando acaba perdido após sofrer um acidente com seu caiaque, levado pela correnteza de um rio místico e quase – senão todo – ritualístico, constituinte de um caminho multiplamente espiritual, conhecido por Santiago de Compostela, onde, historicamente, os peregrinos veneravam as relíquias do apóstolo Santiago Maior e recebiam automaticamente, ao seu fim, indulgência plena. Esse é só o início da transformação em O Ornitólogo, evento recorrente na obra do diretor lusitano e que aqui é encarnada por um tenro pastor surdo-mudo e gay, uma dupla de chinesas católicas e supersticiosas, amazonas nuas utópicas e uma tribo folclórica que pratica rituais de violência durante a noite na floresta.


Desse modo, trazendo o tema religioso à tona, retratando uma espécie de jornada de santificação, o filme envolve o sagrado e o profano sem qualquer pretensão polêmica, apoiando-se fundamentalmente à transmutação de Fernando em (Santo) Antônio, transformando-o gradativamente em um homem inspirado, repleto de camadas e, finalmente, plenamente iluminado, que encara e supera (não no sentido vitorioso) o extremismo religioso-samaritano, o ritualismo folclórico, o sacrilégio carnal-homossexual e a atrocidade sanguinolenta num primeiro momento e, em seguida, a despessoalização identitária e a cura miraculosa. A ascensão religiosa homem-santo, aqui, não vai de encontro com o conservadorismo – muito pelo contrário.

Rodrigues não subestima o espectador e, a partir daí, não se apega à lógica clássica do sentido. Com imagens que simplesmente se fazem presentes e experimentáveis, poeticamente enquadradas, o diretor pretende a harmonização do cristianismo à homossexualidade através da morbidade e devassidão intrínsecas aos afetos. Constituído por metáforas visuais superpotentes fundamentadas em pontos de vista e uma trilha sonora desarmônica-estridente, o filme se desenvolve em unidade rítmica profundamente simbolista – tanto visual quanto dramaticamente – no que diz respeito sobretudo à abordagem religiosa, como por exemplo o garoto Jesus ressuscitado no gêmeo Tomé (interpretados por Xelo Cagiao) – o que pode levar alguns espectadores a caracterizá-lo como meramente hermético.


Trata-se, enfim, de um filme ousado que brinca com as dicotomias da existência transcendental humana, emulando uma provação baseada na religiosidade que experimenta a crueza do homem. Nesse sentido, é um filme de tons e camadas bem executadas, conscientes de si e do seu papel fílmico, revelando para o público mais uma vez que Portugal faz um cinema fascinante de se aplaudir de pé, apesar de muitas vezes incompreendido pelo público-massa – é necessário estar disposto a encarar uma obra relativamente incomum, desestabilizador; e isso nem sempre é fácil.




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