quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

O Juízo | CRÍTICA


No mesmo ano em que o Cinema Brasileiro expandiu em sua pluralidade e competência contra todas as perseguições possíveis, ver um filme que se envereda para o suspense sombrio como O Juízo faz é um estimulante exercício de gênero que tem recebido bons exemplares nos últimos anos (principalmente se formos considerar a filmografia de Juliana Rojas). Competente na criação de sua melancólica atmosfera numa locação onde o tempo se estagnou, falta algo e muito para que o novo longa de Andrucha Waddington reverbere o seu contexto.

Realizado em família, o roteiro de Fernanda Torres segue um estratagema típico de autores do gênero numa trama de vingança que amaldiçoa gerações cuja solução geralmente se paga com sangue. Herdeiro de uma fazenda de seu avô no interior mineiro, Augusto (Felipe Camargo) viaja com a esposa, Tereza (Carol Castro), e o filho único, Marinho (Joaquim Torres Waddington), para o desolado local que sequer chegou a receber energia elétrica, todavia permeado de belezas naturais. No marasmo do lugar, Marinho se aventura pelos arredores e encontra uma garota que lhe dá um precioso diamante, mas, entre o delírio febril e a realidade pacata do garoto, é Augusto que começa a agir estranhamente, ainda mais quando um sujeito estranho de alcunha Couraça (Criolo) vaga ao seu redor requisitando o que poderia se entender como uma dívida histórica.

Final de uma década cujos primeiros anos levou um grande público às salas para conferir títulos como Chico Xavier, Nosso Lar e o recente Divaldo, é curioso notar como O Juízo traz essa aproximação com o espiritismo brasileiro mesmo que para brevemente fabular o seu enredo e canalizado na personagem de Fernanda Montenegro, prestativa. Dos acertos: a paleta de cores desbotada da fotografia de Azul Serra (Turma da Mônica - Laços), audacioso em fazer muitas cenas à luz de velas, e na melancólica trilha sonora de Antonio Pinto (O Menino Que Descobriu o Vento; Chacrinha; documentário Amy). A participação de Lima Duarte intensifica o mistério da história e prova que o ator, incansável aos 89 anos, sabe transformar um papel rápido e rasteiro numa joia de botar medo.

Talvez seja o impacto da produção congênere estrangeira ou até mesmo da carência de um elo histórico mais impactante tal como Bacurau arrebatou sem lá muitos precedentes, é estranho pensar que O Juízo seja tão vazio. A lentidão dos planos é um acerto da parte da direção de Waddington, tal como a possível atemporalidade da trama e sua estagnação a um passado de opressão, mas seria o seu texto que não dá uma boa voz aos seus protagonistas, pouco estimados pelo público que sempre está na ânsia de melhores pistas e surpresas.



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