segunda-feira, 30 de setembro de 2019

O Clube dos Canibais | CRÍTICA


No idílico calor cearense, membros generalizados da elite brasileira regozijam-se em seu luxo diário: um banho de sol diante de uma piscina com direito a churrasco ou até mesmo uma festa de aniversário com direito a um tenor solando e sempre amparados por funcionários e seguranças privados. Entretanto, mesmo (aparentemente) bem casados, influentes na política e com tantos dígitos na conta bancária, os velhos burgueses são insaciáveis e, no êxtase do voyeurismo e de controversos dizeres reacionários, há quem encontre em O Clube dos Canibais uma máscara para seus fracos e um resgate aos filmes brasileiros picantes e macabros.

Dirigido e escrito por Guto Parente a partir de um caso verídico ocorrido no Rio Grande do Sul no longínquo século XIX, o filme segue a trama (e as transas) do casal Otávio (Tavinho Teixeira) e Gilda (Ana Luiza Rios) que, uma vez seduzindo seus funcionários especificamente parrudos, assassinam os mesmos para devorar sua carne na maior discrição. Ainda fosse um caso particular, Otávio compartilha de tal peculiaridade com outros figurões da praça, dentre eles o deputado Borges (Pedro Domingues) que, além de um amigo de família, pode se mostrar um sujeito perigoso mediante um "segredo" seu descoberto por Gilda, o que pode deixar o casal em apuros… até a contratação de Jonas, um solitário caseiro que se orgulha de ser um "faz-tudo".

(© Olhar Distribuição/Divulgação)

Narrativa que se mostraria bastante funcional num simples curta-metragem, a julgar por sua primeira sequência tão mordaz e com direito aos competentes e sanguinolentos efeitos especiais de Rodrigo Aragão, acaba que Parente encontra um contexto relevante no longa, algo que se faz incrivelmente divertido de acompanhar mesmo com tamanha sugestão de horror e vísceras, sexo explícito e um vocabulário chulo muito que herdado lá da pornochanchada. Para o cineasta, dá a entender que a tal velha burguesia encontra a cura para seus problemas fálicos e/ou de masculinidade ao devorar logo aqueles que procuram eliminar em vias socioeconômicas, todavia convivam em um meio tão hipócrita de aparências e sentimentos. Quando o pobre Jonas surge numa entrevista de emprego, tão exausto de ter habilidades não correspondidas pelas ínfimas vagas disponíveis, não poderíamos torcer mais pelo personagem que não tem pra onde voltar a não ser tentar negociar com o patrão que, por sua vez, é voraz para lhe explorar.

Nesta admirável ascensão desde que surgiu no circuito de festivais com o depressivo A Misteriosa Morte de Pérola, rendendo cenas bem arranjadas e com cortes tão precisos quanto aqueles de machadadas, Guto Parente, equipe e elenco fazem de O Clube dos Canibais uma obra despudorada que vem a calhar em tempos insanos.



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