quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

O Insulto | CRÍTICA


Na maioria das vezes, seja na Internet, no Brasil ou no Líbano, tudo começa com um mal entendido. Numa Beirute contemporânea e em visível crescimento em contraste com a destruída Síria e a conturbada Palestina, vivem Toni Hanna (Adel Karam) e sua esposa Shirine (Rita Hayek), moradores de um prédio localizado em um bairro de população majoritariamente cristã onde ele possui uma oficina mecânica e pretendem criar sua filha, próxima de nascer. De gênio forte, Toni é também membro do partido cristão e ouvinte ávido dos discursos de Bachir Gemayel (presidente do país eleito e assassinado em 1982) a ponto de levar as palavras deste a extremos, especialmente quando Yasser Salameh (Kamel El Basha), um refugiado muçulmano trabalhando como mestre-de-obras no perímetro, decide consertar a calha da sacada do mecânico que, por sua vez, toma o ato como uma invasão de privacidade. 

Dessa briga de motivo risível, implode a discórdia: o palestino caçoa do pedido de desculpas imaturo de Toni, que odiosamente ofende o palestino e este, impaciente, não vê outra forma de encerrar o assunto senão agredindo o libanês. Bronco por opção, Toni quer justiça e o caso atinge outras esferas na cidade, não só irrompendo conflitos religiosos com forte apelo xenofóbico, como virá a resgatar mazelas de um passado não tão distante e que ainda incita seus lados opostos em suas ações.



Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro com um bom precedente dadas as suas exibições no Vienalle e no Venice Film Festival, O Insulto (L'insulte) é um filme que, a partir do retrato cotidiano de seus personagens bem delineados (e que nem sempre são lá carrancudos), vem a tempo de esclarecer essa questão tão intrincada às suas audiências estrangeiras comumente acomodadas com a visão parcial de telejornais. Com um tema de extensa resolução, o diretor Ziad Doueiri e a co-roteirista Jouelle Touma levam a narrativa para os tribunais com uma verborragia densa, mas longe de cansar o espectador, graças ao ótimo elenco principal que sustenta a trama, reforçada quando o afiado Camille Salameh e a compassível Christine Choueiri chegam para dar vida aos advogados de Toni e Yasser. É interessante notar também como Doueiri movimenta sua câmera, alternando pontos de vista com elegância dentro dos mesmos planos e hábil por encaixar alguns gracejos merecidos.

Fazendo do longa um bate-estacas na estrutura rebocada de sua sociedade (que chegou a boicotar a produção) e por não ter receios de mostrar um esganiçado circo midiático tão atentado em incitar a cólera na população (disposta a sair para as ruas a fim de exaltar todo o seu ódio) e políticos em cima do muro, Doueiri aventura-se brevemente em digressões que resgatam imagens de arquivo remontando ao período da Guerra Civil Libanesa (talvez o estopim das dores dos dois homens), embora, motivações a parte, a questão da viagem a Damour seja o ponto mais deslocado da história. Com um humor que varia entre seus polos, enfim, O Insulto conclui que o apreço ao capricho em seus ofícios é o que torna os homens melhores acima de seus credos e origens neste Líbano onde o sol há de brilhar.




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