quarta-feira, 2 de junho de 2021

VERÃO DE 85 – a intensidade do amor juvenil | CRÍTICA

Félix Lefebvre e Benjamin Voisin em VERÃO DE 85
 

A filmografia de François Ozon é repleta de títulos que tendem a se debruçar sobre o desenvolvimento de relações (muitas delas, amorosas) cuja intensidade há de ter um preço no final. Década que ainda reverbera no gosto popular graças a sua profusão artística que tanto lançou hits musicais e filmes de aventuras inesquecíveis, além de estilos de vida impulsionados por uma sociedade consumista conferindo uma nostalgia até mesmo para aqueles que sequer a vivenciaram, a impressão gerada por Verão de 85 é que não havia época melhor para curtir a vida e, assim, permitir se apaixonar acima de qualquer tabu.


A região da Normandia sob o olhar de Ozon (Frantz) parece o local ideal para se curtir a temporada mais quente do ano, todavia sem muitas opções para o futuro profissional de Alex (Félix Lefebvre) que, aos 16 anos, tem lá um apreço pela literatura para não seguir o ofício de estivador do pai que levou a família para a região há pouco tempo. Ao conhecer o galante David (Benjamin Voisin), Alex parece encontrar no rapaz um amigo de verdade que lhe faltava por ali e, do convívio incessante e passeios no mar, cinema e nas atrações do parque de diversões, há algo a mais no excesso de gentilezas do rapaz rico que Alex, quando enfim se dá por conta, já se deixou levar sem arrependimentos.

Félix Lefebvre e Valeria Bruni Tedeschi em VERÃO DE 85
(© California Filmes/Divulgação)

Roteirizado também pelo cineasta francês a partir do romance inglês escrito por Aidan Chambers, Été 85 (no original) é um autêntico resgate à leveza juvenil daqueles idos e é impossível não compará-lo com Me Chame Pelo Seu Nome, embora Ozon seja mais elíptico e alinear em sua narração de incidentes do que Luca Guadagnino. Dadas as circunstâncias atuais onde distanciamento se faz medida sanitária e a ação de acelerar mensagens de voz em WhatsApp é comemorada por muitos e discutida por outros, chega a ser fascinante ver esse retrato de uma juventude que aproveitava ao máximo o tempo livre fora de casa enfatizando conexões presenciais para estender isso em conversas ao telefone. O tempo passava de uma forma diferente ou eram aqueles jovens que sabiam aproveitar cada segundo?

Félix Lefebvre, Philippine Velge e Benjamin Voisin em VERÃO DE 85
(© California Filmes/Divulgação)


Optando pela filmagem em película com a bitola Super 16, o diretor nos transporta para dias ensolarados com uma aderência a vestimentas em tons de azul (aparentemente, ter uma jaqueta jeans era tudo!) e que retrate a relação dos jovens de forma tão intimista aderindo até mesmo uma câmera com operação manual, além dos enquadramentos distantes e detalhes na fechadura de portas que incitam o voyeur para algo que era (e, lamentavelmente, ainda é) mal visto por muitos. É digno de nota também o fato de Alex usar roupas de tons mais terrosos lá para a segunda metade do filme e o que isso significa aos incidentes em questão.


Félix Lefebvre e Benjamin Voisin em VERÃO DE 85
(© California Filmes/Divulgação)


Entre tragédia e gracejos, há aqui uma história de amor entre dois adolescentes cuja realização seria impensável na década em que justamente retrata apesar dos tantos e badalados teen movies. Com Verão de 85, Ozon consegue dar voz e cor para tantos que precisaram ser invisíveis ou tiveram que viver e amar intensamente com brevidade – uma paixão inigualável que, a cada vez que a retumbante linha de baixo e a rouquidão da voz de Rod Stewart em "Sailing" tocam num walkman, só tende a reforçar laços além do cumprimento de uma promessa.

 



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