quinta-feira, 13 de agosto de 2020

Psicose …60 anos e ainda estremecedor! | CRÍTICA

Janet Leigh em "Psicose" (1960)

Ao fim da década de 1950, Alfred Hitchcock assoprava as velas de 60 anos de vida e já detinha uma vasta filmografia de mais de três décadas que só corroboravam para seu sucesso. Pouco (ou nada) queridinho da Academia, a ponto de ser indicado 5 vezes para o Oscar de Melhor Diretor, o chamado "Mestre do Suspense" dificilmente torcia a cara para novas técnicas cinematográficas e, só naqueles idos, havia apresentado um filme em 3D protagonizado por Grace Kelly além do amplo e belo escopo que o formato VistaVision concedia, resultando na hipnótica experiência de Um Corpo Que Cai enquanto a televisão parecia uma ameaça para a prosperidade do cinema. Hitchcock, porém, enxergou um potencial na telinha e tinha até seu próprio programa apresentando tanto contos de mistério como novos realizadores. De fato, um homem em frenesi criativo.

Tendo lançado Intriga Internacional (um provável pioneiro no ramo da espionagem já refletindo a paranoia macarthista da Guerra Fria com bom estilo e ação, potencializada com 007), há quem esperasse que o cineasta britânico provesse mais uma fita grandiosa escalando os astros do momento e com aquela trama intricada que ansiava a todos até a punição dos devidos vilões. Mas "Hitch", que meio que sempre correu por fora no circuito, viria a lançar em 1960 aquele que seria tanto um limiar em sua carreira como serviria de prenúncio de uma Hollywood que conturbava-se para tempos mais radicais.

É preciso salientar que não faltam livros, entrevistas e até mesmo filmes que melhor descrevem os bastidores de Psicose; por isso, concentro-me nas minhas impressões e demais apontamentos. Roteirizado por Joseph Stefano a partir do livro homônimo de Robert Bloch (muito que inspirado num crime hediondo situado alguns anos antes da realização do filme), mais do que uma fita de suspense, Psicose é uma narrativa que vem a tocar justamente no ímpeto de pessoas comuns. Mais precisamente, aquelas que querem transgredir códigos de conduta a fim de serem livres à sua maneira, apesar de tomarem estradas nada convencionais aos olhos de muitos para concretizarem o que tanto lhes vêm a mente.

Janet Leigh em "Psicose" (1960)
(IMDb/Reprodução)

E é assim que conhecemos Marion Crane (Janet Leigh), exaurida de ter que fugir na hora do almoço para ter encontros amorosos com Sam (John Gavin), um vendedor de outra cidade e divorciado, e ainda ser a "solteirona" no escritório imobiliário onde trabalha, a ponto de um certo cliente caçoar da sua situação enquanto esbanja um maço de 40 mil dólares sonegados a fim de comprar uma casa para a filha que está casando. Os olhos de Marion faíscam. De uma responsabilidade que lhe é dada, é uma via de fuga para sair de Phoenix, Arizona, e morar com o amante na Califórnia! No entanto, uma noite chuvosa a faz parar num motel que sobram vagas já que a rodovia afastou os viajantes cansados para outra direção. Na desolação da noite, Marion conhece o proprietário do local, o jovem Norman Bates (Anthony Perkins) que, mesmo com notáveis conflitos internos, não quer se desapegar do estabelecimento familiar e da mansão colina acima aonde mantém a mãe rabugenta. Aquele que parecia hospitaleiro, tão logo demonstraria uma sombra de hostilidade em sua face.

Anthony Perkins em "Psicose" (1960)
(IMDb/Reprodução)

O que parecia ser um interlúdio para Marion se recompor da miríade de pensamentos extenuantes que lhe atormentavam desde que pegou a estrada, eis que a conversa com Norman lhe instiga a regressar por uma chance de redenção. Mas se a água quente da ducha parecia ser o início disto, tal vã recompensa se torna, senão, um exorcismo. A então secretária se vai, tal como os resquícios de bondade que ainda restavam em Bates que, agora, assume o protagonismo da trama e confere ao espectador um dilema moral: devemos nos compadecer por Norman, que nada mais está sofrendo de distúrbios dados a uma instrução doméstica abusiva ou que a justiça venha à tona? Quanto às notícias do paradeiro de Marion, é como se estivéssemos às cegas quando a narrativa coloca a irmã, Lila (Vera Miles), em busca de qualquer informação em parceria com o detetive Arbogast (Martin Balsam). Por sorte, para um espectador atento, o roteiro e a mise-en-scène de Hitchcock nos dão as mais diversas pistas, seja nas linhas de diálogos como em detalhes minuciosos do cenário, onde até mesmo a trilha sonora de Bernard Herrmann guincha como faziam os pássaros empalhados na sala de recepção do Bates Motel.

Vera Miles em "Psicose" (1960)
(IMDb/Reprodução)

Munido de sua equipe técnica do programa para televisão, Hitchcock não esbanja a suntuosidade fotográfica crescente de seus longas anteriores, mas a adesão à película monocromática meio que concede ao diretor e à Psicose uma inocência artística que não tarda a se rebelar. Apesar de o set up de iluminação ficar devendo um jogo de sombras mais fascinante, é na decupagem que reside a preciosidade do filme. A fatídica cena do chuveiro e seus 70 planos e 40 segundos de duração, mais do que a representação de um homicídio, é uma facada de criatividade na censura do Código Hays que viria a ruir, por fim, nos anos à frente, todavia me seja estranha a decisão do diretor em optar por um plano conjunto que revele a silhueta invasora ao fundo, logo quando, em posterior entrevista para François Truffaut, o cineasta revela que prefere iniciar um plano em close-up justamente para não tornar a ação previsível.

Anthony Perkins em "Psicose" (1960)
(IMDb/Reprodução)

Em outra contradição, presente na sequência final do filme, o roteiro e a direção permitem um longo monólogo do psiquiatra vivido por Simon Oakland, ainda que haja uma razão para acontecer dessa forma. Hitchcock, que afirmara para Truffaut que diálogos são ruídos e que "tudo o que é dito em vez de ser mostrado está perdido para o público", parece entender que é necessário ter um veredito clínico para explicar ao público que a questão de Norman não se trata de um episódio de "travestismo", porém um tópico mais complexo a ponto de flertar com o sobrenatural.

Mais do que um êxito popular o qual o cineasta nunca conseguiu repetir, Psicose (Psycho, no original) é um filme astucioso que anteviu a produção e a predileção de narrativas menores de uma Hollywood em transição e que logo viria a aclamar filmes independentes que, tal como este suspense legítimo de Hitchcock, traria um novo fôlego com seu misto de surpresas e mistérios.     


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