quinta-feira, 27 de setembro de 2018

Um Pequeno Favor | CRÍTICA


Paul Feig é um cineasta que não deve ser subestimado. Anos à frente de produções geralmente cômicas tanto na TV (Freaks and Geeks, The Office) como no cinema (Missão Madrinha de Casamento, A Espiã Que Sabia de Menos), o diretor do mediano remake de Caça-Fantasmas se provou um exímio diretor autoral não só pela sua perspicaz revisão de gêneros, mas por subverter muitos dos elementos que caracterizam estes. Das meras comédias românticas às fitas de policiais e espionagem, com Um Pequeno Favor, chega a vez de Feig flertar e acertar em cheio com um suspense digno de Hitchcock sem que isso signifique ser antiquado.

Com roteiro escrito por Jessica Sharzer (Nerve, American Horror Story) a partir do romance assinado por Darcey Bell, Um Pequeno Favor é um filme sobre grandes compulsões. Anna Kendrick vive Stephanie Smothers, uma mãe solteira que se ocupa como uma vlogger de sucesso mediano tendo como público-alvo outras mulheres que aderiram a uma protetiva maternidade com receitas nutritivas e demais recreações para os pequenos. Ao conhecer a chiquérrima Emily Nelson (Blake Lively) na escola em que os filhos de ambas estudam, as duas mulheres começam a partilhar um estranho vínculo de amizade do qual muitos invejariam, se não fosse pelo fato de Emily ter uma relação instável com o marido, Sean (Henry Golding), e viver a favor dos negócios e um dry martini mais do que bem feito com gim, limão siciliano e taça gelada. No entanto, quando aquela que entedia como sua amiga desaparece do mapa por alguns dias, Stephanie inicia uma busca que lhe renderá consequências inestimadas e surpresas abaladas em um ótimo crescendo do suspense na trama.

Lionsgate Publicity/Divulgação)

De fato, o longa brinda e bebe muito das referências do clássicos do passado sem se esquecer de sua contemporaneidade que se faz vital. Enquanto o humor surge justamente entre situações cotidianas, nos excessos da paternidade, por debochar de quadros extravagantes e da breguice de um estilista e ao apontar para a onda de sensacionalismo em troca de likes dos ditos influenciadores digitais, Feig constrói um thriller moderno que não fica refém da estrutura que as adaptações dos romances de Gillian Flynn se aproximaram a exaustão com a série Sharp Objects (ainda que esta tenha seus devidos méritos); com cara de Garota Exemplar, há uma menção ao francês As Diabólicas e inspirações a Um Corpo Que Cai que dão ao filme não só um figurino caprichado digno de Edith Head, mas camadas no roteiro que afastam sua narrativa de ser um mero caso banal. Não obstante, os pôsteres da obra muito remetem aos trabalhos visuais e geométricos do lendário Saul Bass.

Lionsgate Publicity/Divulgação)

Dono de um misto de elegância e morbidez, de pontos de virada absurdos de divertidos enquanto mantém a tensão de todo bom suspense detetivesco até a resolução de seu último ato, Um Pequeno Favor (A Simple Favor, no original) também é irreverente ao colocar suas protagonistas (ótimas!) em um interessante patamar de atuação ao distanciá-las de seus principais tipos, principalmente ao assistirmos à Blake Lively se tornando uma vilã que passamos a odiar afora sua beleza e magnetismo. Com o perdão do trocadilho, ver este filme é um grande favor que qualquer fã de suspense deveria fazer para si nem que seja por vias de entretenimento.


  

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