sexta-feira, 28 de setembro de 2018

PéPequeno | CRÍTICA


Após um período de lançamentos esporádicos que, ainda assim, lhe rendeu o Oscar de Melhor Animação com Happy Feet há mais de uma década, a retomada da Warner Animation Group desde Uma Aventura LEGO demonstrou que o estúdio do Pernalonga era capaz de fazer narrativas sensíveis e com um toque familiar para todos os públicos. Há dois anos, Cegonhas botava um sorriso bonito de se ver no rosto do espectador ao apresentar as confusões de uma família nada convencional (o mesmo pode se dizer de LEGO Batman, inclusive) com uma cativante mensagem sobre o amor fraterno aliada a uma animação de ponta e agora, com PéPequeno, a Warner dá outro grande passo com uma animação cuja moral se faz necessária em tempos de convivências atritantes.

Dirigido por Karey Kirkpatrick (Os Sem-Floresta) e roteirizado pelo mesmo em colaboração com Clare Sera (O Diário da Princesa), com argumento da dupla John Requa Glenn Ficarra (Golpe Duplo) a partir do livro escrito por Sergio Pablos, PéPequeno inverte o ponto de vista da lenda do Pé Grande (ou "abominável homem das neves") e constrói um universo ao redor daqueles que, no alto do Himalaia, também são chamados de ietis. Crentes em sua própria mitologia onde leis são cravadas em pedras, a comunidade de ietis mantém uma rotina funcional para que haja equilíbrio em seu vilarejo, delegados a cumprirem tarefas que alimentam diariamente a tradição que seguem veemente.

Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Migo (voz original de Channing Tatum) é herdeiro do cargo de acordar o "caracol de fogo", mas o resultado de seu treinamento mal sucedido o leva a um fato sem precedentes no local. Obstinado, Migo é guiado pela curiosidade montanha abaixo e descobre que, além de ganhar o apoio de novos amigos, descobre que as regras nas pedras vão contra a existência do seu povo e a aparição dos humanos e seus pés pequenos que, abomináveis lendas a parte, até que são amigáveis.

Em paralelo com o propósito de contar uma história originalmente infantil e cômica, é curioso ver que PéPequeno se coloca como uma produção bastante versátil não só pela sua variedade de músicas originais de ritmos e estilos ecléticos (além de um cover inspirado) e uma animação próxima do estilo cartunesco das personagens do Dr. Seuss aliado a uma decupagem também ousada que traz boas e pontuais referências a cultura pop, mas é especialmente quando a narrativa assume ponderamentos críticos que a projeção se torna bem mais interessante. Personagem semelhante àquele vivido por Jake Gyllenhaal em Okja, o jornalista ambiental Percy (dublado originalmente por James Corden) busca desesperadamente um furo de reportagem para alavancar sua carreira e seu (para tantos) desinteressante programa sobre animais exóticos – nisso, o encontro com Migo lhe é inesperadamente estratégico, mas a que ponto? Deveria um "ambientalista" manter as criaturas e seu hábitat secretos ao mundo ou estimular um turismo exploratório e reconquistar sua fama?

Warner Bros. Pictures/Divulgação)

O contexto do roteiro, por grata surpresa, não termina neste dilema. Entre uma era de fake news irritantemente engolidas como verdades por aqueles de pensamentos maniqueístas e/ou reacionários, PéPequeno questiona o quão longe as mentiras se tornam um fanatismo travestido de um ato de bem maior em prol da sobrevivência dos ietis. Enquanto "a ignorância é uma virtude" é lema para aqueles que se contentam com tudo que lhes é dito sem provas reais, não há névoa que esconda o poder que o conhecimento tem de nos levar para longe, para todos os cantos e para rever conceitos.



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