sexta-feira, 15 de julho de 2016

Caça-Fantasmas | CRÍTICA


Uma música-tema grudenta e atuações marcantes fizeram Os Caça-Fantasmas se tornar um clássico da década de 80 e, embora se passaram mais de trinta anos desde o lançamento do primeiro longa, a ideia de uma continuação ou um reboot ainda soa inadmissível para aqueles que acreditam que seus filmes favoritos devem se manter intocáveis, assim como a intenção de ter quatro protagonistas femininas numa produção inédita. Em se tratando de diversão e sem se deixar abater pelo machismo, estas mulheres Caça-Fantasmas não perdem em nada para o quarteto masculino original.


A nostalgia tem sido uma aliada formidável para os grandes estúdios depois que filmes como Jurassic World e Star Wars: O Despertar da Força, com seus universos pra lá de estabelecidos, somaram uma bilionária quantia de dólares aos seus cofres (não se esquecendo do merchandising relacionado que também acresce bons dígitos nessa conta). Para o público, nada mais gratificante do que rever seus ídolos depois de tantos anos, prosseguindo com a continuidade das histórias que tanto gostam – até mesmo umas poucas e discretas referências visuais ou verbais sobre algo ou alguém já são satisfatórias e dignas de muitos comentários após a sessão. Com Caça-Fantasmas, a Sony Pictures e o diretor/roteirista Paul Feig preferem começar (quase) do zero sem abrir mão de todos os elementos icônicos, perdendo a oportunidade de criar uma nova identidade estética para o filme enquanto fica refém das várias homenagens que presta ao passado.



Porque é com o conhecido riff de Ray Parker Jr. que somos apresentados às novas personagens, começando por Erin Gilberts (Kristen Wiig), que tenta o título de cátedra na Columbia University, embora tal conquista esteja em risco quando o herdeiro de uma casa mal-assombrada vem ao seu encontro pedindo para que solucione o caso de uma fantasma que perturba o local. Anos antes de tentar a vida docente, Erin havia escrito um livro sobre o duvidoso tema com Abby Yates (Melissa McCarthy) e, enquanto a primeira tinha receios quanto ao lançamento do volume, a outra levou a publicação adiante para financiar suas pesquisas que qualquer cético julgaria como insanas. A partir daí, Erin visita Abby a tempo de salvar sua carreira acadêmica, mas o chamado da aventura para testemunhar (e filmar) o sobrenatural fala mais alto. Juntam-se à dupla a engenheira Jillian Holtzmann (Kate McKinnon), que vai prover as armas de prótons, e tardiamente entra no time Patty Tolan (Leslie Jones, ótima), a funcionária de metrô que conhece tudo sobre Nova York e também aquela que tem o primeiro contato com o vilão da trama. Desde já, um sujeito reprimido e arrogante cuja motivação (nada inédita) aspira grandeza enquanto não tem carga suficiente para amedrontar o espectador.

Paul Feig adquiriu uma merecida reputação por meio dos seus filmes que, com sua clara ênfase na comédia, também são experimentos de cada gênero ou tema para o diretor. Da concepção de personagens com características ridiculamente engraçadas, da revelação de contraplanos inusitados, rompendo expectativas, além das boas sacadas de seus roteiros, sarcásticos com os padrões impostos pela sociedade, o protagonismo feminino sempre foi um diferencial. Se Melissa McCarthy e Feig, parceiros de longa data, haviam atingido seu ápice cômico em A Espiã que Sabia de Menos, chega a ser estranho notar como a atriz parece contida em meio a suas três colegas, uma interpolada dinâmica prejudicada por recorrentes gags que se sobrepõem a ação, o que deixa com a sensação de que o diretor acredita que seu deboche autoral esteja a frente da própria narrativa (co-roteirizada por Katie Dippold) e precise encher cada cena com alguma coisa engraçada, o que nem sempre dá certo. Exemplo disso é o disléxico secretário vivido por Chris Hemsworth que se sai melhor apenas quando suas falas e gestos atrapalhados contrapõem seu físico avantajado, mas não leva muito tempo para que a burrice do personagem se torne algo exaustivamente repetido, pouco acrescentando algo relevante ou risível nas demais cenas em que aparece


Diante de tantos apontamentos, tendendo mais para o pessimismo, fica a dúvida: ainda vale a pena? Caça-Fantasmas (Ghostbusters) reserva boas sequências bastante divertidas, grande parte delas concentradas em esculachar o machismo que ocupa os mais diversos cargos em Nova York, de um reitor grosseiro que calça chinelos ao prefeito (ninguém menos que Andy Garcia) que aproveita de solenidades (e de sua secretária) para velar seu preconceito. Ainda que seja lamentável ver Bill Murray desperdiçado após um par de cenas breves (mas não menos engraçadas) e que Feig perca a oportunidade de flertar também com o terror, provendo momentos assustadores que viriam a calhar, por outro lado, a experiência em 3D acrescenta e muito ao filme, vide os fantasmas (com visuais distintos e fascinantes) escapando das telas, assim como gosmas de ectoplasma e raios de prótons que deixam o filme atraente e mais interativo (recomendo assistir em IMAX).

Apesar de sua causa feminista não ser lá das mais eficientes, há de se levar em conta a importância deste novo Ghostbusters para a indústria do cinema contemporâneo. Das quatro atrizes que integram o time das Caça-Fantasmas, três já são "quarentonas" e estão longe do padrão de beldade de Hollywood, o que não quer dizer que não sejam talentosas, muito pelo contrário. Da excelente ponta de Sigourney Weaver às cenas em que elas deixam de se importar com os comentários de haters misóginos nos seus vídeos no YouTube, a mensagem não poderia ser mais clara: seja lá seu físico ou idade, as mulheres podem ser inteligentes e são bem capazes de salvar a cidade de fantasmas ou de qualquer tipo de opressão.




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