sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Corpo e Alma | CRÍTICA


Vencedor do Urso de Ouro no 67º Festival Internacional de Berlim e de outros quatro prêmios em festivais afora, Corpo e Alma é mais nova aposta de ouro da Hungria após o merecido êxito de Filho de Saul há dois anos, sendo condecorado com os melhores troféus da temporada. Listado entre os 92 candidatos a concorrer a uma indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o longa escrito e dirigido por Ildikó Enyedi busca, através de imagens que vão do belo ao mórbido em instantes, enxergar por dentro das mais obtusas das pessoas que, apesar das aparências e estranhos hábitos, se mostram dignas de sonhar e o que mais desejarem.

Recém-chegada como substituta de uma inspetora de qualidade em um matadouro bovino, Mária (Alexandra Borbély) atrai diversos olhares para si com seu rosto bonito e jeito tímido, especialmente os de Endre (Morcsányi Géza), o diretor financeiro do local, que trata de enturmar a moça na hora do refeitório sem muito sucesso. Endre é insistente e, por mais que a moça também insista em ser esquiva, acaba que um bizarro sumiço de um "pó de acasalamento" para gado ajuda os dois a se entrosarem, principalmente quando descobrem que compartilham de um mesmo (e pra lá de simbólico) sonho.


De fato, Teströl és lélekröl (no original) é um prato cheio para psicólogos e de entusiastas da psicanálise, ainda mais com tantos elementos freudianos expostos em cena. A começar com os perfis dos personagens, sejam eles os protagonistas e coadjuvantes, tão cheios de mecanismos de defesa e atitudes que visam sempre a vida sexual com referências óbvias (o gerente de RH e o problema com a esposa, a psicóloga "peituda") e outras que beiram a metáforas, tal como o braço paralisado de Endre e sua renúncia pelo desejo carnal ou a crescente libido de Mária no parque.

Uma pena que tais analogias (que nem são tão inéditas assim) e uma ou outra breve cena de bom humor culminem em um filme deveras repugnante não só pelas imagens explícitas do matadouro (contrapostas com closes com os olhares sensíveis do gado), como principalmente no retrato misógino das personagens femininas. Da esposa do gestor de RH, da psicóloga sensual ou da amante que é dispensada na madrugada, todas são subordinadas sexualmente perante às decadentes figuras masculinas, mas é inegável a falta de tato da diretora quanto à problemática ao redor de Mária – teria a moça um tipo de autismo ou é apenas tão introvertida ao ponto em que se ater a mínimos detalhes ou que seu peculiar jeito de viver lhe condenem como uma pessoa "estranha"?

A partir do momento em que o súbito comportamento autodestrutivo da moça é tratado com pouco caso e um aparente deboche, para um título que se diria tão profundo, Corpo e Alma nada mais é, enfim, do que aquela incômoda sujeira que deveria ser varrida das telas do bom cinema húngaro.




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