quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Narcos (3ª Temporada) | CRÍTICA




Quando anunciaram que Narcos continuaria mesmo com a morte de Pablo Escobar (Wagner Moura), houve logo um temor de que o show não pudesse continuar com a mesma intensidade. Polêmicas com sotaques à parte, El Patrón era o típico personagem carismático que o público amava odiar. E ainda que exista uma dúzia de críticas à série da Netflix exatamente por mostrar este lado afável, visto por muitos, inclusive pelo próprio filho de Escobar, como uma apologia ao narcotráfico, esta foi uma das sacadas dos criadores para explorar os dois pontos extremos do anti-herói e trazer um sentimento tênue à narrativa entre o fascínio e o espanto. Verdade seja dita, por mais monstruoso que o traficante tenha sido, é incontestável que seu carisma foi vital para seu imenso sucesso no ramo. Assim como mostrado ao longo das duas primeiras temporadas, Pablito era frequentemente ovacionado quanto odiado – e eliminá-lo do programa era uma investida muito mais perigosa do qualquer outra. Como prova, essa terceira temporada carece um pouco a falta de sua persona, embora tenha encontrado, neste ano, sua melhor forma.


Com o agente Murphy (Boyd Holbrook) agora fora da jogada (como aconteceu veridicamente), Peña (Pedro Pascal) decide voltar à Colômbia para enfrentar o cartel de Cali: uma super organização meticulosa comandada por quatro engenhosos chefes. Apesar de ter sido promovido após os acontecimentos em Medellín, o agente vê seus planos contra o narcotráfico em conflito com a própria DEA, quando descobre que o departamento pretende dar a fim na quadrilha de forma muito mais diplomática e injusta que o esperado.


Se nos anos anteriores existia algum resquício que a história poderia ser otimizada em benefício de um ritmo melhor, aqui não há mais. Os dez episódios são totalmente enxutos: iniciam e concluem tramas e subtramas de forma muito objetiva, mantendo uma narrativa muito agradável durante toda temporada. E melhor, mantendo todos os pontos positivos do que deu certo anteriormente sem parecer repetitivo ou exaustivo. Neste novo núcleo central, praticamente todo distinto do anterior, foi desenvolvido com muita competência pelos criadores. É, literalmente, como se Chris Brancato e Carlo Bernard tivessem construído outra série quase do zero. E com esse desafio em mãos, a construção de um novo vínculo emocional foi crucial para que Narcos continuasse a brilhar e despertando interesse do telespectador. Na verdade, não existe ninguém com o poder hipnotizante da figura interpretada por Wagner Moura, mas é como se essa força tivesse sido distribuída a diversos personagens, tornando a capacidade sentimental da série mais homogênea que antes. Os quatro chefões do tráfico exaltam uma personalidade completamente distinta entre eles que, curiosamente, mesclando-as, lembram Don Pablo. Artimanha que beneficia o entrosamento com o público e de certa forma justifica porque o cartel de Cali parece tão mais desafiador que o de Medellín. Na figura de um único homem, que mandava e desmandava, aqui temos quatro pessoas para não apenas dividir as complexas tarefas da operação criminosa, mas para minimizar os erros e potencializar o negócio como qualquer empresa lucrativa de cunho legal faria. Ainda que isso resulte em uma matança disfarçada de pacificidade e inundasse todo governo, até os cargos de alto escalão, com uma corrupção que basicamente deixava o país a mando dos criminosos. 


A grande sacada do show ainda está na posição de privilegiada que posiciona seu público frente à narrativa, envolvendo-o de forma eficaz nos planos e decisões dos personagens (colabora-se e muito o carisma dos atores em geral). O tom quase documentário e investigativo prende atenção e surpreende, ainda que os fatos tenham ocorrido há duas décadas e tenha sido tão midiático. O roteiro, claro, dramatiza e manipula certos acontecimentos para melhorar seu andamento e dar relevância ao elenco não-central. Algo não só natural, mas viável para garantir que o programa, antes de tudo, entretenha e flua bem. Mas nenhum destes maniqueísmos inibe o absurdo dos fatos reais (sempre estampados com vídeos da época), da excentricidade dos “Cavaleiros de Cali” e sua organização. O que nos reserva para a inevitável quarta temporada é difícil dizer, mas se a capacidade dos criadores de se reinventarem continuar tão prazerosa, Narcos promete ir longe.


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