segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Castelo de Vidro | CRÍTICA


Com suas catárticas lições de vida, a contínua produção de filmes ficcionais inspirados em histórias verídicas caiu num pleonasmo quando a (quase) iminente fatura dos tão almejados prêmios da temporada de ouro de Hollywood se sobrepôs a um retrato mais distinto de sua narrativa proposta, ainda mais quando seu elenco trata de se esforçar em sua desfiguração em prol da semelhança com suas personagens reais. Não poderia ser diferente com O Castelo de Vidro (The Glass Castle) que, apesar de projetar ótimas performances de seu elenco a partir do livro escrito pela jornalista Jeannette Walls, deixa uma cansativa exposição verbal se sobrepor às suas demais qualidades explícitas no filme.

Em 1989, Jeannette (Brie Larson) encontra-se em um ápice profissional e pessoal: trabalhando na imprensa em Nova York e noiva do analista financeiro David (Max Greenwright), ela se veste bem e esbanja seu intelecto nos jantares de negócios do noivo, mas o que poucos sabem é quão longe e sofrível foi para ela chegar até ali e aportar sua elegância; um acúmulo memórias amarguradas que vem à tona quando ela avista seus pais, Rex (Woody Harrelson) e Rose Mary (Naomi Watts), revirando lixo nas ruas da cidade e que lhe servirão de guia para seus próximos passos na vida, considerando que ela nunca teve escolha. Dessas tantas lembranças, acompanhamos, então, boa parte da vida de Jeannette, desde quando ela era uma menina e viu suas duas irmãs e irmão crescerem com ela em residências nada fixas pelos Estados Unidos, com chances mínimas de fartura na mesa e de uma escolaridade decente, tudo porque Rex acreditava que suas convicções eram suficientemente sãs para toda a família, muito pelo contrário. Dos acidentes com as crianças às diversas crises dentro das "casas" causadas pelo alcoolismo do tão instável pai, tal relação de amor e ódio tornaria os Walls cada vez mais fortes e preparados para o pior, embora isso por vezes dependesse de tempo e dinheiro.


Afora a sofridão dos Walls que se repetem pelas décadas expostas na tela, é visível também o ótimo trabalho de Brie Larson (que só cresce como atriz), Naomi Watts (sempre afiada na hora certa) e Woody Harrelson que, com seu papel de educar os filhos de forma muito peculiar, lembra a ótima performance de Viggo Mortensen em Capitão Fantástico, porém, excetuando alguns pares de passagens feitas para serem bonitas aqui e acolá (a escolha de uma estrela de presente de Natal, que duram mais do que brinquedos de plástico), o caráter do velho Rex é praticamente desprovido de empatia se for considerar a soma de irresponsabilidades acumulada e levando a família para os mais diversos brejos onde só a inocência da infância pode remediar com a (falsa) esperança de que tudo irá melhorar em diante. Com uma instabilidade de sobra que se justifica com um acontecimento dito nas entrelinhas, assim, o longa tenta criar uma auréola sobre a cabeça do complicado personagem na mesma velocidade que volta a cogitar um par de chifres em incidentes cujo final da história parece ficar cada vez mais distante.


Dirigido e co-escrito por Destin Daniel Cretton, acaba que O Castelo de Vidro detém um teor mais moralista do que o necessário (não por menos, Cretton co-assinou o roteiro de A Cabana...) em meio a sua série de acontecimentos que já tinham dado conta do recado por completo, o que não quer dizer que, apesar de tudo, não contenha uma boa mensagem de resiliência.



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