quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Capitão Fantástico | CRÍTICA


Desde que inventaram o tal do socialismo séculos atrás, tem sido uma verdadeira briga entre nações e grupos ditos intelectualizados querendo provar com argumentos irrefutáveis que, dependendo de seu posicionamento, o capitalismo é um mal ou a solução para a sociedade como um todo. Em um ano marcado por tantos tumultos no cenário político global e manifestações extremistas, a natureza e a doutrina de livre pensamento social apresentados em Capitão Fantástico são postos a prova quando uma família é forçada a adentrar o tentador meio consumista da civilização.

Dirigido e escrito por Matt Ross, conhecido por seu papel na série Silicon Valley, o filme narra a rotina de Ben Cash (Viggo Mortensen) no cuidado e no ensino diferenciado de seus seis filhos no interior de uma floresta em algum lugar da região Noroeste dos Estados Unidos. Mas, ao contrário de uma típica comunidade hippie regrada a paz, amor e vegetarianismo, no recanto autossustentável erguido por Cash e sua esposa a família caça e cultiva seu próprio alimento, além de impor um treinamento físico pesado às crianças (de pré-escolares a adolescentes prestes a ingressar a faculdade), aumentando a resistência corporal e assim evitando doenças ou quaisquer fraquezas. Mesmo restritos à tradicional educação escolar, cada jovem ali se mostra apto para responder questões de alto nível intelectual e, não por menos, debates sobre correntes de pensamento socialistas não faltam nas rodas familiares durante a noite.



Um isolamento a la Walden, porém, que fez a esposa de Cash adoecer indiretamente e seu falecimento, já na cidade, abala toda a família, fazendo-os tomar a estrada e voltar para a civilização em busca de um apropriado último adeus para a mãe. No entanto, se a conduta disciplinar de Ben aos filhos lhe parecia conveniente perante uma sociedade consumista e tão taxativa, ainda mais quando cada criança parece estranha aos olhos de outras pessoas ou quando Bodevan (George MacKay), o mais velho da turma, mal sabe se comportar diante de outras moças da sua idade. Se isso não parece de todo o mal para a irmã de Ben (vivida por Kathryn Hahn, de Perfeita é a Mãe!), cada incidente de repercussão negativa é um estofo a mais para que Jack (Frank Langella), ainda amargurado pela perda da única filha, conteste a guarda dos netos.

Seguindo o estilo da boa safra de filmes indie que surgiram na última década, tais como Pequena Miss Sunshine, Na Natureza Selvagem e Livre, a dose de drama e comédia em Capitão Fantástico é bem dosada, embora sua viagem de ônibus seja mais extensa do que aparenta, ainda mais quando o roteiro se empenha em dedicar pelo menos alguns minutos para cada integrante da família e seu patriarca, com direito às amistosas melodias da música folk americana. Viggo Mortensen está ótimo no papel, dono de um carisma magnético que nos prende justamente por apresentar Ben Cash tão convicto em seus ideais e refém do amor pela sua família. Tampouco não se vê um radicalismo revoltado contra o sistema nos quais os esquerdistas da velha guarda ficaram taxados. Uma atuação sincera e envolvente sem maneirismos ou marketing a parte comentando extravagâncias na preparação de seu personagem em troca de premiações futuras.



Em âmbitos cinematográficos, o filme pouco traz de inovador entre seus congêneres dos road movies bucólicos e a fotografia ensolarada de Stéphane Fontaine (do aguardado Jackie) mantém o bem-estar mesmo quando tudo parece estar perdido. Da emocionante versão de "Sweet Child O'Mine" às diversas asserções sobre o mundo e suas correntes de pensamento, que nos fazem rir e abertos a reflexões, Capitão Fantástico (Captain Fantastic) é uma surpresa agradável e bem-vinda para tempos onde o direito à liberdade de pensar e agir parece, para uns e outros, algo deveras perturbador.



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