terça-feira, 4 de abril de 2017

A Cabana | CRÍTICA


Alcançar o status de best-seller é uma façanha e tanto para um livro e seu autor, atestando aí um sucesso que possibilita continuações e, o que é mais frequente, ter o conteúdo transposto para a televisão ou para o cinema a ponto de estúdios e produtores ofertarem lances milionários pelos direitos de filmagem da obra. Lançado em 2007 e escrito por William P. Young, "A Cabana" alcançou a marca de 25 milhões de cópias vendidas no mundo desde então, chamando a atenção por seu drama de auto-ajuda tocante e o contato com Deus em tempos de dificuldade, algo que ainda surge contemporâneo em sua adaptação cinematográfica tardia, mas relevante e necessário a quem se interessar.


Aos olhos de qualquer pessoa, a fotogênica família Phillips parece indefectível vide tamanha dedicação de Mack (Sam Worthington) e Nan (Radha Mitchell) aos três filhos (Kate, Josh e a mais nova, Missy), sendo atenciosos e não lhes deixando faltar nada, incluindo aí a instrução e penitência religiosa, assim como em qualquer lar tradicional. Enquanto a mãe é a responsável pelas finanças, Mack segue o tipo caseiro e assim passa mais tempo com as crianças, levando-nas, inclusive, para um acampamento para o contato cada vez mais raro com a natureza. Um passeio agradável que, entretanto, acarreta no desaparecimento da filha caçula e, após tamanha tragédia, numa melancólica decadência da família que o inverno só ajuda a piorar. Dia após dia mais inconformado em sua falha como pai, Mack parece convicto em cometer uma loucura quando uma misteriosa carta assinada por um "Papai" aparece em sua caixa de correio, convidando-lhe para voltar ao remoto lugar que dá título a livro e filme.



Acima de qualquer coisa, A Cabana foi feito para emocionar. Apesar de ser cinematograficamente desinteressante, a não ser por sua paleta de cores que levemente lembram aquelas do plano espiritual de Amor Além da Vida, o longa se destaca pela escalação de um competente elenco miscigenado capitaneado por ninguém menos que a carismática Octavia Spencer (Estrelas Além do Tempo) assumindo o mais que atarefado e recobrado posto de Deus, acompanhada do israelense Avraham Aviv Alush como Jesus e a japonesa Sumire como o Sopro do Vento, além da nossa conterrânea Alice Braga materializar a Sabedoria. Alegorias divinas estas que justificam o caráter motivacional do filme e não poupam indagações ao protagonista quanto ao seu modo de enxergar e julgar as coisas terrenas, agora ouvindo e aprendendo o que cada um tem a oferecer e propor, sobretudo no que se refere a conceder perdão a quem menos se espera.

Conduzido sob a auto-indulgente ótica cristã, o material é repleto de asserções que até vem a calhar numa atualidade deveras intolerante (ou, mais precisamente, na esfera virtual) e não tem receios de abraçar a esperança e a religiosidade na resignação do luto, diferente do premiado Manchester à Beira-mar e suas ações irreversíveis. Todavia, é absurdamente lastimável o fato de que o material, representado na voz da Sabedoria, insista numa preponderância em afirmar que aqueles que não aceitam Deus estão propensos a cometer o mal, logo quando não faltam exemplos de pessoas ateístas ou seguidoras de outras filosofias que são referências em trabalhos humanitários, além de terem igual capacidade de amar e perdoar o próximo. 



Ao passo em que o Jesus camarada apresentado no filme preza pela liberdade dos indivíduos e que hoje despreza a ideia de "escravos" seguidores de igrejas, A Cabana vai pela contra-mão do que prega (mesmo parecendo tudo muito bonito e reflexivo) e peca por suas contrariedades que podem ser levadas a extremos mesmo quando tudo o que foi lido e visto até aqui foi, senão, uma obra de ficção.




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