quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Atômica | CRÍTICA


Engana-se quem pensa que Mad Max: Estrada da Fúria era o limite da expressividade física para Charlize Theron. Em Atômica (Atomic Blonde), a atriz também não mede esforços para colocar, além da agressão, sua eficaz sensualidade para um elevado patamar e tanto, especialmente num ano em que o público se porta bastante receptivo aos filmes liderados por protagonistas femininas fortes, independentes e à frente do seu tempo. Nas mãos do diretor David Leitch, que resgatou Keanu Reeves ao gênero de ação com John Wick, essa parceria mais do que bem-vinda não só rende fulminantes sequências de lutas como projeta uma revisão insana sobre os filmes do decadente final da Guerra Fria.

Os dois lados de Berlim são castigados pelo mau tempo na primeira semana de novembro de 1989, mas a cidade dividida ferve em protestos clamando pela queda do muro e também em sua cultura marginal que reprisa nos portáteis stereos os grandes hits musicais da década, além de todo o tráfico de bebidas e bens consumidos pelos ocidentais e que o povo atrás da Cortina de Ferro tanto almejava. Só que a capital alemã também é um perímetro de muita violência, ainda mais quando uma lista com os nomes de vários agentes especiais cai nas mãos erradas e resta à espiã britânica Lorraine Broughton (Theron) recuperar o artefato juntamente com o arbitrário informante David Percival (James McAvoy) sempre na trilha de pistas incompletas ou ter que se livrar de policiais e mafiosos soviéticos no meio do caminho.


Importando os enquadramentos rebuscados da graphic novel "The Coldest City" e, daí, inserindo muitas cores das luzes neon aos frames do filme sobretudo em suas cenas noturnas, o interesse de Leitch fica bastante claro e bastante ciente do que está fazendo: muito acima da vontade em explorar o importantíssimo pano de fundo de sua história, o desenvolvimento da ação vem em primeiro lugar e bem acompanhada de uma coreografia impactante com uma operação de câmera que valoriza cada movimento desferido em cena, resultando em sequências de lutas e fugas variadas que não só gritam para serem chamadas de impressionantes (e de fato são), como se provam narrativamente inventivas. Tudo porque Lorraine não carrega em mãos uma mala repleta de armamentos, o que iria contra a discrição de uma espiã, e muitas vezes precisa enfrentar os capangas com o que vê pela frente além de sua pistola, ocasionando em cenas que são tanto brutais como não deixam de ser cômicas.


Enquanto o plano-sequência do prédio vai dar muito o que falar por todos os seus méritos, muito se deve também à força que Charlize Theron emprega durante o filme na composição de sua personagem empoderada mesmo com um roteiro cuja trama esteja mais pra aborrecível do que interessante, de fato. Se toda a fúria de Theron é louvável em suas cenas arriscadas dispensando dublês em prol da veracidade (ao contrário de muitos filmes e séries que abusam de perucas que cobrem quase todo o rosto e ainda gravam os dublês de costas), a atriz também esbanja charme nos interlúdios amenos e faz uma picante dupla com Sofia Boutella e sua espiã francesa, rendendo cenas provocantes banhadas pelo contraste de esfumaçadas e contrastantes luzes azuis e vermelhas. Quando a presença de Charlize faz jus ao nome da obra, é bastante compreensível o clamor de um coro por aí pedindo para que a atriz lidere uma cobiçada versão feminina de James Bond.

Todavia, o problema do filme reside justamente em suas repetições de artifícios. A ótima seleção de músicas da trilha sonora atiça a empolgação na hora do combate, mas, afora suas costuras diegéticas, fica evidente o uso das canções sempre para o mesmo fim. As idas e vindas à cena da sala de depoimentos com Toby Jones e John Goodman reforça o caráter dúbio da trama no mesmo passo em que a torna mais exaustiva e até seu epílogo é tratado com irrelevância a não ser por aqueles que ficaram querendo mais. Enfim, restando a dúvida se Lorraine Broughton será uma anti-heroína a ser espelhada por garotas mundo afora, Atômica já quitou todas as demais no que tange à capacidade do quanto uma mulher forte pode fazer protagonizando um tremendo filme de ação.



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