quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

Sully: O Herói do Rio Hudson | CRÍTICA


Em um determinado momento de Sully, os pilotos Chesley Sullenberger e Jeff Skiles são levados para o hotel onde estão hospedados no centro de Nova York após uma repreensiva audiência sobre o pouso forçado que fizeram no Rio Hudson. Com seu sotaque carregado, o motorista do carro conta ao capitão do voo 1549 da US Airway que, diante do alarmante número de desempregados e a crise imobiliária, o fato de que os 155 passageiros da aeronave estavam vivos fora a melhor notícia do ano até ali, ainda mais por envolver um avião na cidade naquele 15 de janeiro de 2009. 

Duas semanas antes, Barack Obama iniciava seu mandato como Presidente dos Estados Unidos sob a imensa responsabilidade de melhorar a situação econômica de seu país (e do mundo, por consequência), além de tratar de encerrar a Guerra no Iraque. Aparentemente inconformado com o cenário político e social dos últimos oito anos, mais uma vez, o republicano Clint Eastwood ressalta o heroísmo de um valoroso cidadão americano num filme que atesta sua virtuosidade como diretor além da mera transcrição de um roteiro que faz o possível para encaixar o incidente no escopo de um longa-metragem.



Escrito por Todd Komarnicki a partir do livro "Highest Duty", de Sullenberger e Jeffrey Zaslow, Sully: O Herói do Rio Hudson se assemelha parcialmente com a estrutura vista em O Voo, de Robert Zemeckis, ainda mais quando investe um bom tempo de tela confinado nas burocráticas audiências da NTSB, onde seus agentes acreditam veemente que Sully poderia ter voltado perfeitamente ao aeroporto La Guardia de acordo com os simuladores. Ao capitão também são desferidas perguntas sobre ingestão de bebidas alcoólicas, problemas de sono e até mesmo familiares/conjugais. Felizmente, ao contrário do narcótico piloto vivido por Denzel Washington em 2012, Sullenberger tem uma rotina saudável e uma esposa (vivida por Laura Linney) e filhas dependentes. Para Eastwood, o título de "herói" é mais do que bem-vindo para o capitão da US Airways que, desde a sua juventude aprendendo a pilotar, levou a disciplina a sério.

Cercado de coadjuvantes carismáticos e com direito a uma Anna Gunn (Breaking Bad) que não dá o braço a torcer na bancada da NTSB, Tom Hanks não precisa fazer muito esforço para representar seu personagem verídico, ainda mais quando traz na bagagem filmes de tensão recentes como Capitão Phillips e até Ponte dos Espiões. Junto com um agradável Aaron Eckhart no papel do co-piloto Skiles, o Sully de Hanks esbanja segurança ao mesmo tempo em que se mostra abalado entre o estresse pós-traumático e a ininterrupta cobertura midiática sobre o incidente que estampa jornais e os tantos luminosos na noite da Times Square. Mesmo quando colocam seus 42 competentes anos de carreira em xeque, o piloto se mostra resiliente e o carisma vindo do ator faz com que ficamos ao lado do personagem em seu problemático julgamento.



Apesar de parecer cansativo em alguns pontos para um filme de 95 minutos, a julgar pela repetição do acidente com pares de perspectivas e a adição de flashbacks envolvendo o passado do protagonista, de todo modo, é válido notar como o velho Clint se engaja em rodar um longa tão distinto de sua média de títulos atuando como diretor há 45 anos, apostando até mesmo em cenas de pesadelo e destruição que envolvem efeitos visuais. A sequência completa do acidente é construída com impacto, cortes ágeis e ações que temem o inesperado, vide a mudança de comportamento dos passageiros ao receberem a informação do capitão. Na vida real, foram 208 segundos inacreditáveis, mas as câmeras ARRI Alexa 65 IMAX comandadas pelo diretor de fotografia Tom Stern não deixam nada passar batido, contribuindo para uma experiência tanto grandiosa como turbulenta.

Uma lástima que, jamais se esquecendo de uma tragédia recente e que motivou o adiamento da estreia do filme no Brasil, nem todos os aviões sejam pilotados por um perito como Chesley Sullenberger que, a frente da incerteza, levou o "fator humano" acima de qualquer consequência burocrática.




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