sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Elis | CRÍTICA


Depois do sucesso estrondoso de Dois Filhos de Francisco, lançado há onze anos, recorrer a cinebiografias de artistas musicais passou a ser visto como algo cada vez mais lucrativo para a Globo Filmes, além de finalmente provar que o cinema brasileiro pode satisfazer o gosto popular. Até um momento, a fórmula parecia certeira e outros artistas ganharam suas devidas "homenagens" fílmicas de lá pra cá, embora adaptações estendidas para a TV sempre estiveram nos planos da Globo e seus encaixes para a programação de final e início de ano. Se dramatizar a carreira de Elis Regina parecia um argumento para transgredir o modelo das biopics nacionais, infelizmente, o novo não veio para o filme dirigido por Hugo Prata.

Numa análise aprofundada, poderia-se dizer que Elis se trata de um conto sobre a perda da inocência de uma jovem cantora oriunda do Rio Grande do Sul que, acatando sacrifícios, adentrou a sedutora boemia carioca para conquistar os palcos e seu pódio na música popular brasileira. No entanto, o roteiro assinado por Prata, Vera Egito e Luiz Bolognesi cobre quase duas décadas da vida de Elis Regina trilhando por um caminho cronologicamente seguro, sem atiçar lá muitas polêmicas (contestar a ditadura só convém quando o negócio se torna pessoal) e utilizando os maiores sucessos da cantora como elemento de transição entre suas fases, começando exatamente no 1º de abril de 1964 em um Rio de Janeiro prestes a efervescer com o regime militar. Pouco a pouco, conhecemos como Elis foi alçada a uma estrela pelos figurões da cena musical carioca, sua tumultuosa relação com Ronaldo Bôscoli, seu icônico corte de cabelo, sua turnê na França e demais incidentes até culminar em seu infeliz falecimento.


Comprovando sua láurea de Melhor Atriz no último Festival de Gramado, Andréia Horta entrega uma deliciosa interpretação de Elis Regina, ressaltando a vontade da intérprete em cantar "pra fora" enquanto as garotas da Bossa Nova insistiam num canto introspectivo, melancólico. Com seus sorrisos meigos e contagiantes, Andréia também faz boas interações com Júlio AndradeLúcio Mauro Filho, Rodrigo Pandolfo e até Caco Ciocler que, mesmo num papel caridoso, ainda assim não consegue se desvencilhar de suas feições duras. No entanto, mais parece que seus personagens estão ali para soltar uma frase de efeito a fim de motivar a cantora a fazer algo na sequência ou apenas povoar a reconstituição biográfica.



Dos caprichos do filme, é bonito de se ver o trabalho da direção de arte ao recriar espaços do Rio de Janeiro, São Paulo e até Paris nas décadas de 60 e 70, salientados pelos bons recortes na iluminação da fotografia de Adrian Teijido (Zoom), ainda que a decupagem de Prata insista nos televisivos planos fechados para impactar a fala de cada personagem, o que por vezes gera descuidos na continuidade e até rupturas na imersão do drama.

No final, fica a impressão de que Elis tinha muito mais pra contar, vide sua segunda metade com fôlego irregular e suas passagens bruscas pelos últimos anos da cantora, deterioradas com usos escandalosos da trilha sonora original. É uma pena também que o contexto político nas entrelinhas das letras de músicas como "O Bêbado e O Equilibrista" tenham pouca abordagem ou quem sabe até um paralelo com nossa atualidade preocupante; e que a narrativa culmine num dilema moralista ao invés de abordar períodos seletos da vida da cantora, tal como Danny Boyle e Aaron Sorkin fizeram brilhantemente com Steve Jobs, fugindo do automático macro-retrato de início a fim de carreira. De resto, fica a esperança de que, assistindo ao filme, as novas gerações se interessem pela boa discografia da cantora e que venham papéis interessantíssimos para Andreia Horta, recompensando sua brilhante performance.



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