sábado, 9 de julho de 2016

A Era do Gelo: O Big Bang | CRÍTICA


Ao longo de 14 anos, quatro longas e alguns curtas, A Era do Gelo proporcionou diversas aventuras na Pré-História que colocaram o improvável trio formado pelo mamute Manny, o preguiça Sid e o dentes-de-sabre Diego em desafios cada vez maiores provocados pela ação da natureza. Filme após filme, mais ficava evidente que a união sempre venceria as adversidades e agora, com A Era do Gelo: O Big Bang, isso não poderia ser menos diferente. Excessos de personagens a parte, inflando a história com passagens pra lá de novelescas, a diversão continua presente e em tamanho família, porém distante de seu inusitado humor das primeiras animações.


Como se já não bastasse o rompimento e derretimento das geleiras, o ressurgimento dos dinossauros em um vale perdido e a separação dos continentes, a catástrofe da vez provocada pelo afortunado esquilo Scrat vem em escala espacial, bagunçando todo o Sistema Solar a ponto de mandar uma chuva de meteoros que coloca toda a vida na Terra em risco. Enquanto o desastre não chega em solo, ameaça mesmo para Manny (Ray Romano/Diogo Vilela) e Ellie (Queen Latifah) é o fato de que sua filha Amora pretende se casar com o desengonçado, porém bondoso, Julian e partir pelo mundo, ao invés de ficar com o bando sob os olhos dos pais super protetores; por sua vez, Sid (John Leguizamo/Tadeu Mello) se desespera mais uma vez ao levar outro fora em sua busca por uma companheira, por mais "românticas" que sejam suas tentativas de encontros; já o outrora solitário Diego (Denis Leary/Márcio Garcia) e sua parceria, Shira (Jennifer Lopez), pensam em ter filhos, mas a aparência predadora do casal parece longe de ser convidativa para crianças. Até a Vovó, a uma certa altura do filme, encontra um improvável affair! Pouco a pouco se percebe que, apesar da sua proposta de entretenimento de uma aventura apocalíptica, A Era do Gelo: O Big Bang pende mais para uma comédia romântica com as mesmas tensões familiares já vistas e revistas nos filmes anteriores.



Se o Scrat passa a maior parte do tempo no espaço com seus esquetes ainda divertidos e melhores que seus momentos no quarto filme (aliás, tudo aqui está relativamente superior à aventura anterior), com passagens que causam risadas inesperadas, por outro lado, o roteiro solicita que os espectadores estejam atentos às tendências culturais dos últimos anos. Ouve-se a turma de mamíferos pré-históricos falando em "foto de perfil", hashtags e demais gírias contemporâneas que a dublagem encontra um jeito de encaixar no texto, sem contar as ações cada vez mais antropomórficas, que vão do uso de "celulares", clubes de campo a comemoração de bodas de casamento. Ao passo em que o excesso de personagens fica mais alarmante, não justificando a presença daqueles(as) que tem pouco a fazer ou dizer no desenrolar da trama, é o doninha Buck (na voz de Simon Pegg originalmente) que recebe uma volta triunfal, senão mais engraçada do que sua estreia no longa de 2009, embora traga na sua cola um trio de dinossauros voadores deveras dispensáveis. De seu momento mais memorável, talvez a hilária personificação do astrofísico Neil deGrasse Tyson, com direito a bigode, coletinho com adornos astrais e uma edificante faixa na trilha sonora homenageando o programa Cosmos.

Sobressaindo-se nos elementos visuais melhorados e até mesmo no 3D interativo que explora bem a profundidade de campo, a animação do Blue Sky Studios deixa passar sinais de desgaste mesmo que seus personagens continuem tão carismáticos tanto quanto em suas primeiras aparições. Sem Chris Wedge e Carlos Saldanha na direção, surgindo nos créditos somente como produtores executivos, a franquia parece distante de seu viés cartunesco que foi um diferencial em 2002, uma grata surpresa logo quando os Looney Tunes e outros desenhos clássicos pastelões ficavam esquecidos. A sagacidade que por vezes dispensava diálogos, focando no impacto das ações das imagens, agora é substituída pela previsibilidade e pela exposição verbal, anunciando os incidentes que seguem. Nem mesmo a adição da exótica Geotopia faz muita diferença a não ser injetar mais criaturas na história. 



Dos acertos, A Era do Gelo: O Big Bang (Ice Age: Collision Course e uma tradução errônea de seu subtítulo) amarra melhor suas tantas subtramas, colocando o Scrat e a Vovó como os heróis do bom humor do filme, e suas cenas de ação são eficientes por não se apegarem ao lado trágico presente em produções da Pixar ou da Dreamworks. Como uma animação voltada para as famílias, há entretenimento de sobra para quem se apega fácil aos personagens. Os mais exigentes do gênero, no entanto, talvez vejam o drama exaustivo da família mamute como o exato período da Era do Gelo onde a queda dos meteoros seria bem oportuna.



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