terça-feira, 1 de março de 2022

BATMAN – uma desafiadora reversão do herói | CRÍTICA

ROBERT PATTINSON as Batman in Warner Bros. Pictures’ action adventure “THE BATMAN,” a Warner Bros. Pictures release. Photo Credit: Jonathan Olley/™ & © DC Comics

 

Batman é um dos personagens dos quadrinhos que, provavelmente, mais recebeu adaptações para as telas ao longo dos anos cujo apelo popular, ao contrário do que se leva a presumir, se mantém intacto mesmo tendo que disputar espaço com outros heróis que inauguram suas aparições em filmes e séries. Seria também a sua maleabilidade de ser reinventado por diferentes realizadores ao longo das décadas que proporciona ao público uma estranha sensação de ineditismo – mesmo com tantos intérpretes, parece que há sempre um lado de Bruce Wayne e seu alter ego que ainda não fora retratado no cinema. Sendo assim, a aposta do diretor Matt Reeves (Planeta dos Macacos: A Guerra) em inserir o herói numa trama de intensa investigação se torna um exercício cinematográfico não menos do que excelente de acompanhar e de desvendar seus mistérios.


Escrito pelo diretor em parceria com o roteirista Peter Craig (Jogos Vorazes: A Esperança), parece até um exagero dizer que Batman nunca fora tão detetivesco quanto se vê agora, encarnado com maestria por Robert Pattinson. Apesar de suas extensivas quase 3 horas de duração, o roteiro é enxuto. Sem flashbacks pra lá de piegas (coisa que se tornou um vício irritante entre títulos de super-heróis tanto na DC como até mesmo na Marvel), a trama vai direto ao ponto: a cidade de Gotham há muito adoece pela desigualdade acarretada por décadas de corrupção e, no meio disso, há quem esteja combatendo a violência durante a noite por tempo o suficiente a ponto de o sinal no céu ser um aviso a malfeitores enquanto um indivíduo que se intitula de Charada (Paul Dano) deixa um rastro de sangue em seu ímpeto de livrar a cidade das figuras corruptas. Para cada ato, torna o dilema: qual o limite entre vingança e justiça?

Paul Dano entrega uma versão assustadora do Charada, dando peso ao enigmático vilão.
(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

Pontuada por locuções típicas de um film noir refletindo as experiências notívagas de Bruce Wayne sob capuz e capa, Batman retrata uma Gotham em camadas sufocantes, ainda mais castigada com um clima nada ameno. É praticamente a primeira vez em que a cidade é mostrada com um goticismo extremo que não se reflete apenas na arquitetura de suas edificações altas e ruas estreitas condenando toda a sua população a rotina decrépita – nem mesmo nas iterações de Tim Burton (fetichista) e Todd Philips (oportunista). Taciturno é o termo mais que apropriado para delegar ao comportamento das personagens que acompanhamos aqui: Bruce é um rapaz melancólico e curvado que não parece se importar com a fortuna herdada ao passo em que seu Batman está sujeito a falhas; Jim Gordon (Jeffrey Wright) cresce em hesitação quando nota que seu próprio departamento de polícia pode estar consumido pelo crime. Inclusive, é um alívio atestar que Selina Kyle, em ótima performance de Zoë Kravitz, não é fadada a ser uma personagem sensualizada e enfatiza aqui ponderações cruciais sobre o que levou a cidade ao que se testemunha.


(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

A direção de fotografia de Greig Fraser (Duna, The Mandalorian) pode ser alvo de reclamações pelo fato de se mostrar tão escurecida (ainda que justificável perante o clima apresentado, ainda mais com tão poucas cenas diurnas), mas é curioso perceber que a mise-en-scène de Reeves se aproveita dessa subexposição crepuscular e entrega composições que valorizam a profundidade de campo entre seleções de foco que parecem até extraídas das HQs de Frank Miller. Até mesmo a questão do voyeur, tão inevitável nos títulos de suspense, se beneficia de tais disposições de câmera enquanto há um trabalho de som minucioso que nos antecipa de quem podem ser tais visões subjetivas. 


(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)

O resultado é mesmo uma grandiosa experiência cinematográfica dada pelo impacto das imagens e, obviamente, pelo elenco indefectível. Além dos nomes já mencionados, Colin Farrell comprova que é possível interpretar o Pinguim além da caricatura de 30 anos atrás, enquanto John Turturro faz de seu mafioso Falcone uma peça importante para ruir a dicotomia tão presente nas histórias do Cavaleiro das Trevas, ao passo em que o Alfred de Andy Serkis só tende a somar com sua presença, mas não possui tempo de tela o suficiente tal como estávamos acostumados a ver nas versões anteriores.

(© Warner Bros. Pictures/Divulgação)


Aliada a trilha sonora poderosa de Michael Giacchino, todas as entradas do Homem-Morcego se dão não menos do que épicas (o Charada, por sua vez, se torna tão intimidador que chega a ser agonizante acompanhá-lo), todavia Reeves e Pattinson se portem dispostos a testar (senão reverter) a fórmula do herói. Entre incidentes constantemente midiatizados e fascistoides que encontram na Internet um líder e um espaço para se organizar, a narrativa subverte expectativas de um grande clímax ao propor uma escolha moral ao protagonista: corroborar indiretamente em ser parte de tudo aquilo retribuindo na mesma moeda ou se dispor a ajudar como era de seu intento? Da brutalidade impensada a um salto de sacrifício, é provável que o herói nunca tenha recebido uma retratação tão poética no cinema para um ato tão decisivo como esse.


(© Warner Bros Pictures/Divulgação)

Para um gênero em que se espera apresentações perpetuamente superlativas, é formidável que The Batman (título original) persista em uma disposição contrária às tendências – e não falo exatamente da escolha peculiar dos figurinos. Seu andamento e todas as demais escolhas artísticas favorecem para que cada momento aqui resulte em um momento apoteótico ao personagem – uma emersão desafiadora indicando que, certamente, seja esse tipo de herói que precisamos agora. 







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