sexta-feira, 9 de outubro de 2020

Nardjes A. | CRÍTICA



Tal como descrevi na crítica de A Vida Invisível, Karim Aïnouz é um cineasta que gosta de buscar e contar histórias sobre mulheres cheias de audácia para contornar cenários que lhes são adversos. Passados os contos narrados em solo brasileiro, o diretor vai de encontro às manifestações argelinas contra o 5º mandato do presidente Bouteflika, em 2019, para destacar um dia na vida de uma jovem resiliente em meio à multidão: Nardjes A.

Projetado na mostra Exibições Especiais do 9º Olhar de Cinema, o documentário de Aïnouz feito com imagens de smartphone revela a rotina de Nardjes em pleno 8 de março, um Dia Internacional da Mulher diferente, tomado de passeatas populares pelas ruas de Argel. O que as legendas iniciais informam que aqueles que, na Guerra da Argélia, eram os oprimidos pela colonização francesa se tornaram opressores do próprio povo, a ponto de instigar as gerações mais jovens a deixarem o país, é bonito ver o registro de pessoas mais velhas, que eram a juventude daqueles idos, ficarem lado a lado com aqueles que iniciam sua vida adulta clamando por democracia e contra a eleição daquele que já ficou por tempo demais no cargo.

(Página Nardjes A. FILM/Reprodução)


O retrato de Nardjes é cativante. O diretor confere detalhes demonstrando a vaidade da garota com seu corte de cabelo descolado e uma maquiagem que ressalta a beleza de sua pele enquanto ela prepara uma solução de vinagre em spray contra possíveis bombas de gás lacrimogênio. Mas a moça é também dona de uma beleza interior e descendente de uma admirável família de militantes. Ao contar sobre a história dos avós maternos, participantes da revolução, Nardjes enfatiza o ato de participar das manifestações a fim de não apagar o histórico dos mártires do passado e a câmera é ágil ao captá-la cantando mais de uma vez músicas em ode àquelas lutas.

Ao constatar a reverberação digital dos movimentos populares em segundo plano, parece até que Nardjes A. é um registro fílmico incompleto considerando que as manifestações se estenderam ao longo do ano e quem nem sempre a protagonista está radiante em todos os atos. Uma entre muitos, mas relevante o suficiente para (tentar) fazer a diferença.



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