quinta-feira, 15 de outubro de 2020

Mãtãnãg, a encantada | CRÍTICA


Mãtãnãg, a encantada (2020) é um curta-metragem de animação que requer do espectador não apenas um conhecimento sobre a linguagem audiovisual e suas propostas estéticas e éticas que vem sendo discutidas ao longo das décadas, mas também um aprofundado conhecimento sobre a cultura indígena e, consequentemente, um olhar para a própria cultura brasileira. Projetado na mostra Olhares Brasil do 9º Olhar de Cinema, o filme dirigido pela cineasta Shawara Maxakali e pelo cineasta Charles Bicalho é baseado em um dos mitos tradicionais do povo Maxakali, cuja protagonista, Mãtãnãg, após ver o marido morto por uma picada de cobra, decide segui-lo, iniciando sua jornada rumo à aldeia dos espíritos, evocando as tradições nativas e explorando sua cosmologia.

Na esteira de uma prática cinematográfica que já foi bastante experimental e que tem em Jean Rouch um dos principais ancestrais-fetiche, mas que atualmente tem dado sinais de seu esgotamento devido ao seu uso excessivo e que, justamente por isso, sofre de banalização por um lado e de despeito por outro, Mãtãnãg, a encantada, foi produzido a partir da cooperação de vários membros do grupo indígena Maxakali, principalmente a partir da oficina desenvolvida para a produção dos desenhos que, feitos com bastante simplicidade, são importantes no que diz respeito à autorrepresentação deles. Autorrepresentação que reforça muitas das discussões éticas sobre a datada ideia da objetividade da câmera e que permeou a antropologia visual produzida no século XX. Um dos exemplos mais emblemáticos a esse respeito foi realizado por Sol Worth e John Adair, que propuseram aos Navajos e os ensinaram a registrar o cotidiano. Ao fim das filmagens, o grupo Navajo conseguia identificar com facilidade aquelas imagens capturadas por eles mesmos, daquelas feitas por Sol Worth e John Adair sobre a cultura deles.

 

(Reprodução)

Além da necessária compreensão sobre a prática cinematográfica na qual esteve envolta a realização de Mãtãnãg, a encantada, o filme trata de um assunto, infelizmente, ainda de difícil compreensão: a cosmologia indígena. Nesse quesito, as relações estanques que, no geral, mantemos sobre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, potencializam esse estranhamento de nossa parte, no entanto, a resolução desse desconhecimento já e possível graças a uma literatura especializada que vem sendo desenvolvida nos últimos anos e que busca, com bastante eficácia, explicar o pensamento ameríndio.    

Por fim, Shawara Maxakali e Charles Bicalho não nos devem maiores explicações sobre o filme, sendo de nossa inteira responsabilidade o desconhecimento da rica cultura brasileira.



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