quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Para Onde Voam as Feiticeiras | CRÍTICA


Para Onde Voam as Feiticeiras
é o filme que dá o pontapé inicial para a 9ª edição do Olhar de Cinema, o Festival Internacional de Cinema de Curitiba. Com um misto de debate, performance e ativismo, a obra de Eliane Caffé (responsável pelo filme Era o Hotel Cambridge), co-dirigida por Beto Amaral e Carla Caffé traz as chamadas "minorias" da sociedade para os holofotes. É inevitável fechar os olhos e ouvidos às intervenções feitas pelo grupo LGBTQIA+ no centro da cidade de São Paulo.

O espaço escolhido é a rua, o centro de São Paulo traz seus transeuntes apressados, comerciantes aos berros e, nesse caso, um grupo bem diversificado. O grupo de performers LGBTQIA+ cria seu espaço traçando a pemba no chão (espécie de giz utilizado pelas religiões afro para riscar os pontos das entidades no chão do terreiro), é ali naquele retângulo simples, traçado no cimento puro, que começa a nossa aula.

Partindo dos indígenas, que sofrem desde a chegada dos portugueses, à violência com a comunidade  LGBTQIA+, que sangra e morre todos os dias, vale dizer que o assunto principal aqui é o espaço. É o grupo que ocupa a rua, esse lugar público que julga, violenta e mata. Espaço de todos, será?

Eliane Caffé, também responsável pela edição, torna o filme bem fluído, trazendo participações daqueles que passam pelo local de gravação, mostrando que o diálogo com esse "outro lado" da moeda não precisa ser tão difícil assim. Uma cena marcante é quando o grupo resolve participar de uma roda em que homens (brancos, em sua grande maioria), realizam uma espécie de pregação religiosa. É ali, naquele momento, que a guerra é declarada.


Basta que alguém, em meio a todos esses cidadãos de bem, se manifeste contrário ao julgamento ferrenho feito aos berros pelos religiosos, para que as vozes comecem a se elevar, para que gritos de Sodoma e Gomorra se façam presentes (mesmo que o ocorrido, citado em Gênesis, passe longe da questão da sexualidade). É nesse momento do filme que percebemos que a conscientização se faz necessária, mas que ela sozinha não vai fazer com que essas pessoas parem para refletir sobre suas ações.

A princípio, o que se espera de toda a discussão levantada pelo grupo, do racismo, do corpo negro, da fluidez do gênero, da ocupação urbana, é uma resposta. Uma alternativa, um direcionamento a ser seguido, como se fosse um conselho sobre como agir diante de tanta ad(i)versidade. Saímos conscientizados de todas as camadas da sociedade que se entrecortam, essa intersecção de lutas diárias. A sensação que fica é de que a luta vai longe, de que são vários grupos lutando pelo espaço, que é dito público, mas que nem todos conseguem frequentar de forma livre.

Para Onde Voam as Feiticeiras é um filme necessário, é necessário enfiar o dedo na ferida da sociedade e ver a reação daqueles que se comovem e também daqueles que tendem a ignorar a história do outro. Ficamos até o final pelo debate, pela folia e pelos depoimentos emocionados de seus atores e atrizes, mas o rumo que tomaremos depois disso, sequer aparece no horizonte. Nada se conclui na luta pelo espaço, sabemos apenas que devemos ocupá-lo.


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