quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Luta Por Justiça | CRÍTICA


Quando o Cinema nos leva a encarar os tribunais, a experiência é sempre catártica. No entanto, antes de a justiça ser feita mesmo que tardiamente (como parece ser na maioria dos casos), as narrativas nos levam a conhecer todo o contexto por trás das acusações, as repreensões sofridas pelo detento aprisionado por um crime que não cometeu ou, como no caso do brilhante Doze Homens e Uma Sentença, a longa tentativa do personagem de Henry Fonda em reverter as opinões do restante do júri, sob muito calor e estresse, no destino de um garoto prestes a ser condenado mais por sua etnia do que supostamente pelo crime. De fato, já não é mais segredo que a maior parcela da população carcerária nos EUA não seja composta por brancos e Luta Por Justiça vem a tempo de contar mais outro caso onde o preconceito aos negros se coloca acima de quaisquer acusações verdadeiras.

Integrante informal de uma trilogia sobre um histórico de perjúrios iniciada pelo documentário A 13ª Emenda e da minissérie Olhos Que Condenam, ambos dirigidos com afinco por Ava DuVernay, Just Mercy (no original) conta a história real do advogado Bryan Stevenson em sua cruzada em tentar salvar detentos (afro-americanos, em maioria) do corredor da morte, porém, especificamente, no caso de Walter McMillan e a falsa acusação de assassinato de uma jovem em 1987. Entre tantas calúnias impostas no processo de Walter, que é mais conhecido pela alcunha de Johnny D. na cidade onde mora no Alabama, Stevenson dedica anos na tentativa de contornar a pena de seu cliente, para o contragosto da promotoria e "cidadãos de bem" de Monroeville que, ironicamente, foi berço de um dos mais reverenciados títulos da literatura norte-americana e sua mensagem a favor do respeito e de direitos igualitários.

(© Jake Giles Netter - Warner Bros Pictures/Divulgação)

Dirigido com sensibilidade por Destin Daniel Cretton, habituado a explorar temas sociais nos seus O Castelo de Vidro (pobreza) e Temporário 12 (orfandade), o filme é um choque de realidade pelo qual espectadores, na acomodação dada por filtros jornalísticos e preceitos pessoais, dificilmente têm alguma noção do que acontece dentro do sistema carcerário. A um ritmo lento que destaca acontecimentos situados em seis anos dentro e fora das grades, Cretton detalha a tal luta de Stevenson em busca de provas contundentes enquanto a perspectiva de McMillan nos leva a conhecer o cotidiano do cárcere e a angustiante espera pela data de sua morte – nisso, há detentos que, mesmo terminantemente culpados, se resignam dos atos porque queriam um devido tratamento psiquiátrico pós-guerra; outros, por outro lado, se sentem aliviados diante de uma notícia de que a sentença foi adiada e, assim podem conviver com seus familiares mesmo que naquele ínfimo tempo de visitas.

(© Jake Giles Netter - Warner Bros Pictures/Divulgação)

Acabando por ser esnobado no Oscar, talvez por uma mão pesada do diretor em fazer uma obra tão soturna ainda que munida de alguns resquícios de esperança, o longa traz uma admirável performance de Jamie Foxx como o injustiçado Walter, o que lhe acaba rendendo monólogos fortes. Enquanto Brie Larson, praticamente uma musa do cineasta, está mais para dar apoio moral à produção, Michael B. Jordan interpreta o obstinado jovem advogado com uma seriedade que parece estranha a considerar seus últimos papéis atléticos, mas tal mudança se faz bem-vinda mesmo com uma falta de carisma.

Tamanha temática extenuante (e há uma sequência que nos aflige com seu derradeiro baque sonoro), Luta Por Justiça procura lidar com o otimismo senão pela demonstração de persistência e da boa vontade das pessoas em querer reverter erros que, de diários, se tornam  estigmas e históricos, e é importante que o cinema e seu alcance se dediquem  e incentivem essas e outras reparações.




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