domingo, 18 de fevereiro de 2018

Eu, Tonya | CRÍTICA


Em 1994, as Olimpíadas de Inverno receberam um tremendo alarde dos noticiários, mas por razões completamente distintas das quais estavam habituadas a receber pautas sobre seus medalhistas e recordes batidos. Tudo porque Tonya Harding, talento nato da patinação no gelo e colecionadora de várias medalhas de campeonatos afora e que tanto almejava um título olímpico, fora acusada de armar um plano que visava eliminar sua principal concorrente e conterrânea, Nancy Kerrigan, com um golpe desferido no joelho. Enquanto um acontecimento de circunstâncias bizarras e consequências questionáveis, não seria coincidência que a história de Tonya ressurgisse como um potencial material típico de um Oscar bait logo na efemeridade dos jogos de PyeongChang, ainda que encontre várias brechas para refletir sobre a população white trash americana e seus problemas de tópicos infindáveis.  

Roteirizado por Steven Rogers (O Natal dos Coopers, P.S. Eu Te Amo) a partir da série de entrevistas realizadas com as personagens reais da história, Eu, Tonya recorre desde a infância da patinadora quando já surpreendia sua treinadora e público logo aos breves 4 anos de idade, passando pela violenta relação em casa (ou em qualquer outro recinto) com sua mãe, a irascível LaVona Golden, e daí para uma adolescência e o início de uma vida adulta decadente ao lado do marido, o temperamental Jeff Gillooly, até culminar nas circunstâncias do infame ocorrido. Juntando as peças, o filme vai traçando o perfil de Tonya aos poucos e com a excepcional performance da radiante Margot Robbie que, muito bem acompanhada de Allison Janney (ótima e irreverente, como de praxevivendo LaVona e Sebastian Stan na pele de Gillooly, expõe uma atleta que, embora mimada com sua auto-indulgência e pelos sacrifícios das pessoas ao seu redor, aprendeu a reverter todo o sofrimento físico e verbal em performances arrebatadoras sobre a pista de gelo ao som de muito rock n' roll e uniformes pra lá de espalhafatosos; uma demonstração de personalidade forte que pouco agradava o recatado júri, só que o problema nunca foi Tonya, obviamente…

(California Filmes/Divulgação)

Decidido a transpor todo o fluxo envolvido no esporte retratado, o diretor Craig Gillepsie (Horas Decisivas) emprega várias câmeras em movimento tornando sua narrativa mais ágil e com incidentes que surpreendem da mesma forma que um axel triplo, além de simular as entrevistas com seus respectivos formatos de tela e qualidade de vídeo. Ainda que alguns momentos surjam excessivamente maneiristas (a câmera que sai do interior da casa de Tonya e Jeff que toma as ruas é um exemplo nítido) e que nem sempre a artificialidade dos efeitos visuais da patinação sejam eficientes, Gillepsie é dinâmico e extrai do roteiro e do elenco um humor que, ora carismático ora depreciativo, se engrandece com a ótima seleção de hits das décadas de 1970 e 1980 onipresentes na trilha sonora em enérgicas inserções bastante semelhantes às empregadas nos dois Guardiões da Galáxia – não por menos, "Spirit In The Sky" (Norman Greenbaum) e "The Chain" (Fleetwood Mac) igualmente se ouvem nos filmes assinados por James Gunn.

(California Filmes/Divulgação)

À medida em que a edição paralela começa a cansar por suas diversas pausas com os depoimentos incessantes que, bem no fim, mais prejudicam do que contribuem para o andamento de sua principal linha do tempo (e some aí um deslocado Bobby Cannavale de bônus), Eu, Tonya (I, Tonya) tenta prevalecer um otimismo refletido em sua protagonista ao passo em que enumera os motivos de sua péssima instrução social que ainda se vê no país (a baixa escolaridade – ou a recusa desta priorizando o trabalho ou, neste caso, um American dream –, a violência doméstica infantil e conjugal) e, nessa mistura tragicômica bem menos pessimista que Foxcatcher e com um teor de diversão contrário àquele de Voando Alto (duas biopics recentes que tratam de atletas olímpicos também daqueles anos), abre importantes reflexões sobre condenações arbitrárias e a bipolaridade da idolatria americana que, por ventura, se reflete dentro da elegante sociedade de sua indústria do entretenimento, onde até mesmo aqueles que eram venerados também estão perigosamente sujeitos ao ostracismo mediante seus escândalos e, daí, passam a figurar entre a mesma população marginalizada em que tanto buscam histórias para celebrar as disformes representações de suas estrelas e que, assim, lhes concedem as mais variadas indicações a prêmios e outras láureas.



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