terça-feira, 5 de abril de 2016

Voando Alto | CRÍTICA


Em anos de Jogos Olímpicos, o mundo costuma concentrar suas atenções nas centenas de atletas que, por anos a fio, dedicam-se aos esportes por pura aptidão prática ou por uma idônea motivação para contornar os problemas da vida. O meio futebolístico, em específico, ano a ano se torna cada vez mais desprezível por ser um mercado lucrativo apenas para cartolas e jogadores, com seus contratos milionários e o brilho temporário dos holofotes dos canais de TV. Aquela sensação de que cada atleta está lá justamente pelo espírito de competição e consagrar seu talento esportivo parece algo cada vez mais raro, assim como os filmes que se propõem a contar a trajetória de atletas notórios de forma bem humorada. Saudoso e cômico, Voando Alto (Eddie The Eagle) não derrapa ao contar o salto da inesperada carreira olímpica de Eddie Edwards.


Desde a sua infância, Michael "Eddie" Edwards sempre almejou participar das Olimpíadas e trazer medalhas para casa, seja lá qual modalidade esportiva fosse. Impasses não faltavam, concentrando-se num problema nas pernas e na figura do pai, sempre insistente para que o filho seguisse a sua humilde e monótona (como uma cena vem a mostrar) profissão de gesseiro. Só mesmo a mãe, Janette (Jo Hartley), para incentivar o garoto a correr atrás dos seus méritos, mas na lata de biscoitos dada por ela as medalhas dão lugar a cada armação quebrada dos óculos de Eddie durante os treinos improvisados de diversos esportes que ele se pôs a testar nas ruas dos subúrbios de Londres. Já adulto, Eddie se mantém persistente e ainda  coloca seu áureo sonho no topo e, quando decide se arriscar no perigoso salto de ski, categoria sem representantes, nada vai impedi-lo de concretizar sua ambição, passando por cima do desdém de um pomposo Comitê Olímpico Britânico e do seu próprio despreparo físico, partindo para a Alemanha a tempo dos Jogos de Inverno de Calgary em 1988.

Na pele deste tão improvável herói está Taron Egerton, bem distinto do seu trabalho em Kingsman: Serviço Secreto, mas não menos competente. O ator surpreende ao transparecer a ingenuidade de seu personagem em meio àquele mundo novo (e restrito) para ele, ainda assim tão bem disposto e de um carisma enorme que fica impossível não torcer por este azarão. E se a figura de um mentor estava faltando até agora, Hugh Jackman preenche o arquétipo com igual simpatia como Bronson Peary, um amargurado ex-atleta (típico beberrão, diga-se de passagem) que acata a decisão de ajudar o sorridente jovem, mas longe de ser um personagem real. 



Em prol de uma boa narrativa, os roteiristas Sean Macaulay e Simon Kelton tomaram várias liberdades criativas no roteiro e todas são bem sustentáveis, por mais contrastantes que sejam com os fatos reais, e a presença de Matthew Vaughn  na produção faz com que cada incidente e personagem ali sejam divertidos e marcantes, no mínimo, tal como sua filmografia que inclui, além de Kingsman, o ótimo X-Men: Primeira Classe e Kick-Ass. Aparentemente, a experiência como ator do diretor Dexter Fletcher pode ter colaborado nesse processo, sendo visível que cada um ali (até mesmo um sueco interpretando um finlandês) esteja bem disposto com o projeto. A intenção essencial de Eddie The Eagle é divertir mais e dramatizar menos.

Assim como sua figura verídica, é bem provável que Voando Alto esteja longe do pódio dos medalhistas ou seja daqueles tipos de filmes que gritam inovações técnicas plano a plano, por mais que haja diversos e funcionais shots de GoPro aqui, ressaltando as expressões caricatas dos atores. Ao som da clássica "Jump", do Van Halen, e a saudosa, inspirada e sintetizada trilha de Matthew Margeson, evocando o melhor da música oitentista, o filme é certeza de puro entretenimento e de mínima pretensão. Que haja mais Eddie Edwards por aí, no esporte e na sétima arte.




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