sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Star Wars: Os Últimos Jedi | CRÍTICA


A Força despertou em 2015 de uma forma tão potente e onipresente que, se for parar pra pensar, as longas quatro décadas de lançamento do primeiro Star Wars são um mero detalhe diante do infinito fascínio que o crescente número de fãs da saga nutrem pelos personagens, criaturas, artefatos e mundos icônicos a ponto de muitos dos aficionados terem perdido a conta de quantas vezes se empenharam em maratonas dos filmes e daí partido para o consumo de games, HQs, livros e, óbvio, dos colecionáveis que parecem nunca chegar a um fim.

Por esses e outros motivos, convenhamos, Star Wars sempre se tratou de um evento cinematográfico além de seus avanços tecnológicos e de sua narrativa arquetípica, mas uma reunião de um público inclinado a um bom escapismo espacial onde o entretenimento esteve ao lado de um amistoso instinto de perseverança. Assim, se toda essa grandeza foi consequência de uma passageira euforia (afora o influente marketing da Disney) que fez uma boa parcela do público deixar de ver o Episódio VII dirigido por J.J. Abrams com os mesmos olhos brilhantes daqueles diante da tela do cinema ou que Rogue One teve evidentes conflitos de apresentação, é inegável o atual esforço da Lucasfilm em manter o legado de George Lucas tão modernizado e instigante quanto foi para as primeiras audiências de 1977, o que faz de Star Wars: Os Últimos Jedi um ótimo exemplo de como renovar a franquia sem perder sua qualidade e, acima de tudo, seu encanto indelével.


Escrito e dirigido por Rian Johnson, conhecido por seu bom trabalho em Looper e em episódios da série Breaking Bad, o Episódio VIII se apresenta sem os mesmos lapsos temporais das histórias anteriores, colocando a Primeira Ordem capitaneada pelo General Hux (Domhnall Gleeson) no encalço da combalida Resistência guiada pela Princesa Leia (Carrie Fisher) na cola dos eventos finais de O Despertar da Força. Desse conflito estelar onde cada baixa é sentida a duras penas e que Poe Dameron (Oscar Isaac) muito tem para aprender sobre tática de guerra além de sua alcunha de melhor piloto da galáxia, as coisas nas distantes ilhas de Ahch-To não saem como esperado para Rey (Daisy Ridley). O Mestre Luke Skywalker (Mark Hamill), por quem ela tanto se esforçou em procurar, surge como um homem decepcionado e negligente, ciente de que o esperançoso fardo que lhe puseram no passado foi em vão após revisões de fatos irreversíveis. Só que a Força, por outro lado, sempre esteve acima de qualquer mera impressão daqueles que acreditam no mínimo de sua capacidade ou de quem preferiu negá-la e, mesmo quando tudo parece estar tão perdido e acossado em terra ou no espaço, aqui prevalece a fagulha dos indivíduos bem aventurados em fazer a diferença ou superar o passado.


Portanto, é curioso notar que, além do fato de ser o filme mais longo da franquia – ponto que se torna favorável para a criação (sem pressa) de cenas épicas em equilíbrio com a diversão e a tragédia –, Star Wars: Os Últimos Jedi se firma como o mais intimista de toda a saga justamente por se dedicar tão bem ao desenvolvimento de seus personagens já consagrados, daqueles que marcam sua estreia aqui ou de um ou outro que precisava de maior atenção. Logo, se conferimos mais uma brilhante performance de Daisy Ridley que faz de Rey uma garota mais resiliente e uma lutadora de pulso firme, todavia curiosa com os desígnios da Força, chama a atenção todo o tormento que Adam Driver passa para o seu Kylo Ren que supera o pedantismo violento introduzido no episódio anterior; aqui, o conflito entre a Luz e o Lado Sombrio lhe é sufocante, incita-o a mostrar do que é capaz diante do Supremo Líder Snoke (Andy Serkis), mas os eventos do passado, a desconfiança de seu mestre e os diálogos com Rey lhe deixam em dúvida se é válido seguir um caminho de ódio e sofrimento. Por sua vez, Mark Hamill ganha do roteiro uma formidável camada que faltava para o seu inesquecível Jedi e não só entrega a atuação definitiva da sua carreira como rompe expectativas iniciais e supera as demais que surgem durante a narrativa, tornando o velho Luke em um ermitão meio rabugento, mas agora poderoso e com o coração grande de sempre. Da mesma forma, Carrie Fisher nos presenteia com uma performance magnética, ilustre por levar seu lema de esperança com afinco e cheio de graça, embora não consiga esconder o cansaço refletido de décadas de luta que lhe privaram, acima de tudo, o convívio com sua família.


As adições do elenco também carregam seu grau de importância, por mais que estejam no núcleo onde a Força tem menos poder na história. A mecânica Rose Tico (Kelly Rose Tran) apresenta a Finn (John Boyega) o lado hipócrita da guerra, onde o luxo é lei nos cassinos e arenas do planeta Canto Bight enquanto os diversos tipos de exploração persistem nesse e em outros sistemas, crítica que vem com o dúbio personagem de Benicio Del Toro e presente na franquia desde os bons seriados animados (Clone Wars e Rebels) e nos livros. Inclusive, é digna de nota a entrada da Vice-Almirante Holdo que, supostamente um alter ego de Kathleen Kennedy (produtora e presidente da Lucasfilm), relega a Laura Dern uma performance de impassividade ao lidar com um cargo e com situações onde (ainda) há quem espere um representante do sexo oposto, o que não quer dizer que a atriz (em ótimo ano) não esteja fadada a atos heróicos.

Olhando para o horizonte



Dando continuidade às inovações cinematográficas elaboradas por J.J. Abrams em Star Wars: O Despertar da Força, o diretor Rian Johnson esbanja confiança ao se arriscar em fazer muito mais do que planos bonitos com movimentos impressionantes da câmera de Steve Yedlin, como reinventar a linguagem consolidada da saga sem se abdicar de seus melhores elementos narrativos. Enquanto os peculiares efeitos de transição se mantêm constantes e a trilha sonora de John Williams continua lúcida e pontualmente apropriada (somando aí sua homenagem brasileira na cena do cassino), Johnson insere flashbacks com pontos de vista, planos em slow-motion, acelerados ou até mesmo ausentes de som, além de um uso inteligente de uma narração em voice over e cortes para planos gerais para mostrar, por exemplo, uma súbita trovoada sobre a ilha. Destaca-se também o peso aplicado durante os combates, surpreendendo a marcialidade da guarda pretoriana de Snoke e toda a plasticidade conferida nas salinas alvo-avermelhadas do planeta Crait, cenário da melhor sequência de guerra do filme.

Tendo em mente que Star Wars se trata de uma fantasia espacial, o cineasta aproveita a oportunidade e busca criar aqui uma maior afinidade com a ficção científica, gênero do qual a franquia costuma ser atrelada e pelo qual Johnson tem muita afinidade. Dessa forma, a ilha de Ahch-To vira palco de uma explanação mais detalhada e orgânica da Força do que suas conhecidas alusões mágicas ou religiosas (Johnson acrescenta elementos surreais em uma passagem sombria que se fazem bem-vindos à série), incluindo um belíssimo e vívido ecossistema com criaturas variadas que não se resumem apenas aos engraçadinhos porgs. Seres alienígenas sempre foram um charme a parte na série e, se os tais rathtars e outros que apareceram em O Despertar da Força pareciam bichos descartados de Star Trek, não faltam ótimos e úteis espécimes agora no Episódio VIII, carregando consigo uma conveniente mensagem de coexistência – e não apenas para estimular vendas de pelúcias e brinquedos.


Reverente ao passado e ao seu cânone, bastante tentado em expandir sua mitologia por anos a fio, Star Wars: Os Últimos Jedi (Star Wars: The Last Jedi, no original) só comete o equívoco de tratar com descaso algumas pontas soltas deixadas pelo capítulo anterior (alguns momentos espaçados nos 152 minutos de filme poderiam dar o recado) e por suas consequências que podem acarretar em problemas para o final da trilogia. Porém, com seu discurso sobre fracassos, escolhas e perdas, é contemplando o horizonte das telas que encontramos o suficiente para mais um espetáculo narrativo e visual digno de emoções verdadeiras, o que já justifica o fato de Star Wars ser merecidamente grande e adorado.




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