terça-feira, 5 de setembro de 2017

Uma Mulher Fantástica | CRÍTICA


Falar de diversidade sexual no cinema se tornou uma das novas portas de entrada para cineastas estreantes que, assistidos pelas curadorias de festivais em busca de programações distintas do circuito comercial, apresentam aí retratos peculiares e introspectivos de suas personagens em uma hibridização onde a empatia reforçada pelos eventos da ficção expõe a rotina de discriminações enfrentadas diariamente pelas pessoas em questão, seja na rua, no âmbito familiar ou, para piorar, quando a religião teima em ditar sobre o corpo alheio. Necessário enquanto filme denúncia e ganhador dos prêmios do Júri Ecumênico, de Melhor Roteiro e Teddy (voltado à temática LGBT) no Festival de Berlim, Uma Mulher Fantástica demonstra que a aceitação é uma das maiores provas de amor existentes.

Marina (Daniela Vega) é uma mulher trans que segue uma vida honesta como qualquer pessoa. É barista durante o dia e cantora de salsa em clubes noturnos, além de ser muito apaixonada por seu companheiro, Orlando (Francisco Reyes) que, apesar de ser uns trinta anos mais velho, nutre um sentimento recíproco pela amada e já tem até passagens compradas para fazerem um passeio nas Cataratas do Iguaçu dentro de dez dias. Para Daniela, ainda mais em seu aniversário, não haveria notícia melhor que essa, apesar de o programa de viagem ser terminantemente adiado quando Orlando vem a falecer no hospital horas depois da festa e, a partir dessa infeliz circunstância, a moça se ver rodeada de inquéritos acusativos por parte da classe médica, policial e da família do falecido (apesar de uma única exceção).



Dirigido e escrito por Sebastián Lelio (Gloria) e produzido por Pablo Larraín (No, Neruda, Jackie), Una Mujer Fantástica utiliza a rotina de luto de Marina para expor a hipocrisia ainda vigente da sociedade que despreza a população trans com a absurda e falaciosa justificativa de que são pessoas que apenas pensam em perversão e também propensas a cometer latrocínios. Assim, antes de Marina passar por uma sucessão de agressões verbais e até físicas praticadas pelos familiares de Orlando e até pela ex-esposa deste, a moça se vê diante de uma impassível policial que só tem interesse em ajudar porque o caso está relacionado a sua pesquisa de mestrado. Diante de tantos absurdos, Marina é resiliente e não vai deixar que lhe neguem uma última homenagem ao homem que tanto a amou.

Embora tivesse a oportunidade de se apropriar da ficção e assim empoderar a personagem na contravenção da verossimilhança (e assim justificar seu título, quase como um Atômica), e considerando que cercar Marina em uma atmosfera de suspense que a poria como uma assassina ou que vê um fantasma se mostram como eventos um pouco falhos, além de usar espelhos para uma semiótica um tanto quanto óbvia, Lelio faz de Uma Mulher Fantástica um filme com uma abordagem singela com sua talentosa personagem/atriz que, assim como suas semelhantes e qualquer ser humano, merece mais dignidade e também aplausos por seus devidos méritos.




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