segunda-feira, 28 de agosto de 2017

Game of Thrones (7ª Temporada) | CRÍTICA



Cerca de uma década atrás, vendo uma entrevista de Michael Bay, pude confirmar um temor que sempre tive em relação aos blockbusters. O diretor de Transformers afirmou que muitas vezes seus roteiros são escritos para viabilizar uma sequência de ação da qual achava interessante, por razões estéticas, independente de ter ou não um contexto a ser inserido dentro de suas obras. Ou seja, o texto deveria ser montado com a única intenção de conduzir o público ao entretenimento não somente superficial, mas desconexo e insensato. 


Algo semelhante parece ter acontecido nesta sétima e penúltima temporada de Game of Thrones. Instável, por vezes incoerente ao ponto de desafiar a lógica da física e do limite da chamada “licença poética”, o resultado final parece uma combinação de fan service e um checklist deixado por George R.R. Martin aos criadores com todos os pontos que precisavam ser abordados para que a história, enfim, tomasse o rumo de sua própria conclusão. É curioso e um tanto decepcionante analisar que, embora o desdobramento final das tramas pareçam críveis e compreensíveis, o percurso até lá não é tão satisfatório quanto deveria.


Ao longo de seis anos, ‘A Guerra dos Tronos’ foi conquistando seu público não somente pela premissa de guerras épicas munidas com dragões enfurecidos e espadas flamejantes, mas de um roteiro consistente (ainda que um tanto quanto problemático em sua narrativa pelo número extenso de personagens), repleto de ousadias, tramóias e ambição. É quase incontável a quantidade de personagens que morreram na série, não apenas de forma violenta, mas completamente inesperada (claro, para quem não leu os livros). Até seu protagonista teve a cabeça decepada sem clemência e cerimônias. Estes culhões narrativos marcaram a adaptação nas telinhas, junto de sua produção irretocável, que já pode se orgulhar de ter uma participação inegável na melhoria do conteúdo televisivo e da promessa de que o inverno tornaria tudo ainda melhor. O inverno finalmente chegou, é verdade, os dragões e as espadas flamejantes também, mas com um roteiro tão preguiçoso e cheio de furos que só não coloca tudo a perder por não subestimar o impacto de seu próprio acontecimento.

  AVISO:
 OS PARÁGRAFOS ABAIXO CONTÉM SPOILERS 
 

A história começa exatamente onde a sexta temporada acabou. Daenerys (Emilia Clarke) finalmente chega a Westeros para proclamar seu direito ao trono, enquanto Cersei (Lena Headey) planeja exatamente o oposto. Jon Snow (Kit Harington) sente a pressão da aproximação dos Caminhantes Brancos e tem a certeza que, se quiserem sobreviver, alianças improváveis terão que serem feitas para enfrentar o exército dos mortos. O maior problema será convencer as partes de que o lendário Rei da Noite é real e ameaça a vida de todos.


É inevitável que, a essa altura, o programa deixe parte de sua politicagem de lado para avançar com a trama em um ritmo mais acelerado, visto que o tempo está mais contado do que nunca e um mar de informações ainda continuava em aberto ou sem conexões. O grande “porém” é que essa “adaptação” narrativa, junto da edição confusa, dá margens muito além da “interpretação poética” por diversas vezes. Personagens não só percorrem trajetos imensos de um lado para o outro em frações de minutos, mas esse “senso de urgência” é usado também como desculpa para justificar problemas estruturais do roteiro. Embora isso possa ser sentido desde o primeiro episódio, é em “Beyond The Wall” que a coisa atinge seu ápice. O plano suicida de Jon Snow não foi só um dos piores e mais estúpidos de toda a série, como vai exatamente contra todo o discurso feito pelo não-mais-bastardo este ano. Se os Caminhantes Brancos estão ao lado da Muralha e podem atacar a qualquer momento, é razoável perder um mês indo e voltando (apesar de não ficar claro nos episódios, a distância entre A Muralha e Pedra-do-Dragão é enorme) para capturar um morto-vivo que anda em formação de exército com uma dúzia de pessoas? Não, não é. Nós sabemos disso e os roteiristas também. É impossível ignorar as soluções baratas encontradas para justificar a sobrevivência não apenas do nortenho, mas de todo o seu “esquadrão suicida”. O episódio em suma é uma amostra de como o roteiro deixou-se sucumbir não apenas ao fan service, fraquejando por uma dúzia de vezes em matar personagens amados pelo público, mas tornou-se um mero elemento de união. A coesão parece secundária à pretensão de garantir ao telespectador um espetáculo visualmente grandioso, ainda que tenha que sacrificar parte da lógica de sua estrutura, e também da personalidade de seus protagonistas para que isso aconteça. 

É inverossímil acreditar que a Quebradora de Correntes se derreteria pelo Rei do Norte após conhecê-lo tão pouco, ou que Arya (Maisie Williams), sem muita motivação, se encheria de fúria contra a própria irmã como uma menininha invejosa. Felizmente, “The Dragon and the Wolf” apagou a péssima picuinha entre as duas, mas tampouco deixou claro até que ponto houve ou não encenação de ambas as partes. É o típico de conveniência que não tem objetivo de otimizar a narrativa, mas de permitir aos roteiristas o viés do inexplicável. Outro exemplo claro é Jamie (Nikolaj Coster-Waldau) aparecer do outro lado do lago, ainda que carregado, quando a Khaleesi poderia facilmente matá-lo. Ou Jon Snow (novamente privilegiado) sendo salvo por seu tio morto-vivo, que aparece literalmente do nada, com o único propósito de salvá-lo e morrer. Nada parece ter saído dos mesmos roteiristas que tanto se esforçaram nos anos anteriores para manter em pé a peculiaridade e os detalhes que tanto fizeram sucesso no show. Existe uma dezena de cenas com potenciais memoráveis que, isoladas do contexto geral apresentado, funcionam muito bem, mas perdem parte de impacto quando escancaram que existem unicamente para o espetáculo ou para agradar o público descompromissado.


Embora tenha percorrido tantos caminhos nebulosos, este sétimo ano deu algumas alegrias ao se lembrar do melhor que o programa tem a oferecer. “The Spoils of War” foi um episódio inteiramente excelente, assim como o discurso de Olenna Tyrell (a maravilhosa Diane Rigg), revelando ter sido ela quem envenenou o adorável Joffrey. A morte de Mindinho (o sempre competente Aidan Gillen), embora parte de um contexto estranho como explicado antes, foi bastante satisfatória. Cersei atingiu o ápice da perversidade e Jamie (finalmente) teve o espaço que merecia. Falando em Lannisters, são estes os responsáveis pelas melhores atuações, como de praxe. Fazem uma balança e tanto contra a inexpressiva Emilia Clarke e pouco afável Kit Harington. Nem no sexo deixam as expressões assépticas. Nos quesitos técnicos, a produção só teve a ganhar. Em especial, os figurinos. É quase possível sentir o peso, volumes e texturas da roupagem dos personagens. Um esmero só.

É difícil presumir que a conclusão da série, ainda sem data definida para estrear, será muito diferente do tom aqui apresentado. David Benioff e D.B. Weiss parecem ter desistido de vez de esperar uma conclusão de George Martin (que não participa mais ativamente nos roteiros da série) e devem seguir com a previsibilidade e o fan service até o fim. E os motivos não poderiam ser mais claros: para que tentar reinventar a roda de uma produção com seus dias contados quando nem mesmo seu criador sabe como fazer isso? (Ou alguém ainda acredita que ele não teve tempo para terminar os livros?) A audiência, recorde disparado este ano mesmo com os inúmeros vazamentos, já deixou claro que não se importa. Os executivos gostam de investimentos conservadores e lucrativos. E com essa fórmula de dinheiro, a única decisão importante a se fazer agora é descobrir quantos derivados vão conseguir extrair pelos próximos anos. Talvez o maior inimigo de Westeros, no final das contas, não seja o Rei da Noite e seu exército de mortos.



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