sábado, 26 de agosto de 2017

Death Note | CRÍTICA



Adaptar o mangá e anime Death Note para filme não parecia difícil tendo em vista que a série criada por Tsugumi Ohba e Takeshi Obata não exigia muita coisa, principalmente pelo fato de ter uma ambientação contemporânea acessível, ao contrário de tantos produtos animados japoneses exportados para o restante do mundo e que fazem sucesso com o seu grau de fantasia lá nas alturas. Depois de três longas feitos e lançados na terra natal, já era tempo que uma versão americana surgisse nesse meio tempo, mas, como de praxe, acaba entregando os mesmos problemas narrativos evidentes em tantas obras similares.


Antes mesmo de a Netflix pegar a batata-quente deixada pela Warner e daí produzir, rodar e disponibilizar o novo filme em seu catálogo, havia um quórum tremendo desmerecendo a obra alegando seu whitewashing ou, em outras palavras, o habitual ato de escalar atores brancos e de língua inglesa em uma história pertencente a outra cultura. Só que isso é o menor dos males, até porque o mote de querer fazer justiça (ou vingança) com as próprias mãos é um tema tão universal quanto antigo em obras ficcionais. O problema mesmo é que, tirando uma ou outra pouca coisa que se distingue de seus originais, este Death Note como se apresenta agora é tão mal dirigido, mal roteirizado e mal atuado que faz de Valerian parecer uma obra-prima inesquecível considerando os mesmos quesitos.



Parecendo um thriller adolescente típico dos livros menos inspirados de Stephen King com traços de slasher films como a série Premonição, o roteiro apresenta Light Turner (Nat Wolff, Cidades de Papel) como um estudante de Seattle que tira vantagem de seu intelecto ao ser pago por seus colegas para fazer seus trabalhos enquanto cheerleaders esbanjam suas fisionomias atléticas nas quadras e valentões perturbam alunos indefesos. Ao perceber que um caderno intitulado "Death Note" caiu ao seu lado, ao conhecer o deus da morte Ryuk (voz de Willem Dafoe) e após a leitura das várias regras contidas no livro (bem mais do que haviam no anime, por sinal), cresce um sentimento de justiça em Light a partir do que era pra ser um teste de uma morte pra lá de descritiva. Das vendetas pessoais concretizadas às punições mortais para criminosos em contingente, as ações do autointitulado Kira endeusam-no e chamam a atenção de um grupo de investigação especial liderado pelo esquisito e insone detetive L (Lakeith Stanfield, de Corra! e da série Atlanta) que, até certo ponto, acredita estar à frente do assassino e fará de tudo para revelar a mente por trás de Kira em uma busca que se torna uma das mais aborrecíveis já vistas no gênero policial.



Dirigido por Adam Wingard, cujo currículo demonstra experiência no terror, a decupagem e a condução do elenco se provam completamente desfavoráveis à narrativa, a começar por Nat Wolff que, afora seu olhar taciturno, surta com gritos afetados ou violentos diferentes do perfil do personagem outrora recatado e observativo. Vital nos episódios seriados, a dinâmica entre Light e Ryuk pouco é impressa em tela e são raros os planos onde o rosto do shinigami ou ambos aparecem juntos, sem contar a voz tão ideal de Dafoe se resumir a diálogos sem grande importância – pouco orçamento não era, a julgar pela espalhafatosa cena na roda-gigante. Margaret Qualley, que faz o par romântico de Light, tenta se portar como uma garota intrigante, porém prejudicada pela montagem irregular, e o que dizer de Lakeith Stanfield senão uma performance carregada dos maneirismos do raquítico (todavia carismático) personagem original e que se prova totalmente incoerente aqui?

Esquivando-se de quaisquer reflexões éticas aprofundadas ou, no mínimo, embasadas no pensamento da sociedade norte-americana quanto ao tema, o filme até poderia representar uma alvorada para novas adaptações de conteúdos japoneses em Hollywood, mas a falta de tempo para um projeto já em andamento com suas falhas constantes atestam o contrário. Vergonhosamente risível a partir do momento em que botam "The Power Of Love" para tocar (original do grupo Air Supply, regravada aqui pela cantora Rosanah com o refrão "Como uma deusa, você me mantém"…), nem que colocassem os nomes de todos os críticos e descontentes no infame caderno esconderiam do mundo o vexame cinematográfico que este Death Note se tornou.



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