segunda-feira, 13 de junho de 2016

Invocação do Mal 2 | CRÍTICA


O cinema de horror revelou ao longo das décadas vários diretores cujas obras consagradas demonstravam não só um estilo particular de filmagem, com suas predileções artísticas no desafio de proporcionar emoções arrepiantes aos espectadores a partir da catarse pelo enfrentamento da morte (e assim se sentirem mais vivos), mas até como um exercício de reflexão e combate aos próprios medos pessoais e sociais. De Jogos Mortais ao primeiro Invocação do Mal, James Wan foi ganhando notoriedade entre estúdios e público por demonstrar uma habilidade virtuosa de conduzir as narrativas, tanto técnica como artística, esquivando-se de jogar sustos baratos ou clichês desgastados por produções de mau gosto. Invocação do Mal 2 é envolvente, atormenta e, embora contenha excessos, se projeta como um terror bonito de se ver.


Após ganharem repercussão com o perturbador caso Amityville no início da década de 1970, o casal de demonologistas Ed (Patrick Wilson, no auge da simpatia) e Lorraine Warren (Vera Farmiga) tentam levar uma vida normal com sua filha, isso quando não estão em programas de TV debatendo seus casos anteriores contra personalidades céticas sedentas para desmascará-los ou tendo visões dos agouros que enfrentaram anteriormente, por assim dizer. Os dois parecem dispostos a encerrar a carreira ali a tempo de não sucumbir diante de forças tão malignas, ainda mais quando a médium prevê a morte de Ed revelada por uma tenebrosa entidade (com cara de Marilyn Manson) que passou a "visitar" a família entre tantos devaneios e até mesmo numa própria pintura feita por ele.



Na decadente Inglaterra comandada pela primeira-ministra Margaret Tachter, mais precisamente no subúrbio londrino de Enfield, Peggy Hodgson (Frances O'Connor) vive com suas duas filhas pré-adolescentes e dois filhos menores, driblando as dificuldades financeiras como pode, uma vez que o marido a abandonou. Talvez a mais sensível da prole, Jane (Madison Wolfe) sente saudades do pai e, como qualquer jovem em qualquer época da vida, o interesse pelo ocultismo parece tentador uma vez que existe a possibilidade de ter suas perguntas respondidas, no caso, por um tabuleiro Ouija improvisado. No lugar de respostas, a família Hodgson estaria prestes a vivenciar noites e dias de terror por afinco naquela casa, começando com tremores de cama, cobertores puxados, cadeiras rangendo e móveis batendo. Até que o espírito passa a se apossar de Jane.

Retornando como roteiristas, James Wan, David Johnson (A Órfã) e Carey & Chad Hayes desta vez enfatizam um tempo de tela maior para a construção da aterrorizante atmosfera que vai se intensificando na residência, além de sentirem a necessidade de explorar um pouco mais o âmbito familiar dos Warren, algo que é totalmente bem-vindo, mas talvez seja esse um dos motivos pelos quais, em se tratando de estrutura narrativa, Invocação do Mal 2 esteja levemente aquém de seu antecessor. Das associações indiretas/propositais com o personagem de Patrick Wilson nos dois filmes de Sobrenatural (afinal, ambos os projetos têm as mãos de Wan); da adição (mal apresentada digitalmente pela primeira vez) do The Crooked Man, ainda que sugira mais um derivado por vir; e das várias cenas cotidianas das duas famílias que, embora demonstrem a exaustão do caso refletida nos indivíduos verídicos, podem cansar também quem está assistindo, o maior estranhamento fica por conta do dilema entre o abraço do surrealismo ou a persistência do ceticismo. Uma vez apresentadas cenas de teletransporte entre cômodos, levitações e sombras que se materializam diabolicamente, discursos descrentes partindo dos Warrens parecem incoerentes, por mais que, fora da ficção, sobram relatos sobre a veracidade do caso "Enfield Poltergeist" – inclusive da participação do casal.



Os excessos, entretanto e felizmente, não deixam o diretor se abater e Wan, juntamente com o diretor de fotografia Don Burgess (Forrest Gump; Homem-Aranha), fazem espetaculares composições cinematográficas, um trabalho que impressiona pela leveza dos movimentos de câmera (incluem aí os planos rotativos que já viraram assinatura do diretor) e pela valorização de cada elemento em cena, estrategicamente demarcados. É gratificante, em tempos onde os planos surgem cada vez mais picotados na edição, ver que James Wan confere importância para o segundo plano como poucos fazem, inserindo pistas nas ensolaradas cenas na casa dos Warrens ou utilizando o desfoque na perturbadora sequência onde Ed conversa de costas com o espírito do antigo morador da casa. São nestas minuciosidades que o filme se torna grandioso, intrigante também pelo seu modo de realização, onde as músicas entram e saem da diegese com fluidez e os cenários (vide a parede embolorada atrás da poltrona) estão lá para potencializar a narrativa e não apenas ser bonito ou feio.



Do seu clímax muito mais empolgante do que o visto no primeiro filme, Invocação do Mal 2  (The Conjuring 2) encontra um bom equilíbrio entre o pavor e a leveza, afinal, uma vida regrada a 24 horas de terror parece um tanto... irreal. Há momentos pontuais em que é possível achar graça sem estragar o teor geral do filme, em outros, a tensão é mais do que permitida. Quanto a veracidade dos fatos, é melhor se deixar levar pela história contada. Insistir no discurso quanto a realidade de uma obra de ficção parece tão obsoleto quanto acreditar que cinema de horror necessita ser mal feito.




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