quinta-feira, 21 de maio de 2020

A Estrada da Vida | CRÍTICA


A Estrada da Vida (1954) é um filme precursor do chamado road movie. Embora pareça uma associação grosseira é o tipo de afirmação que não desagradaria o premiado diretor Federico Fellini que se coloca como o timoneiro responsável pela transição entre o topós ético e estético do neorrealismo italiano para outro cinema, mais autoral, que, sem renegar as influências desse movimento de vanguarda, explora tão bem suas fronteiras. Desse modo, na esteira de retratar uma Itália em constante reconstrução, Fellini continua, com esse filme, a missão de erguer suas paredes com histórias de pessoas comuns que, desprovidas do otimismo dos vencedores, tentam de alguma forma tocar suas vidas. Para essa tarefa, Fellini aposta em contar a história de artistas que, estereotipadamente, seriam os depositários de uma sensibilidade maior, aquele conjunto de emoções que nos afasta dos instintos animalescos. Assim sendo, sua câmera percorre os dias em que Gelsomina, interpretada por Giulietta Masina (Noites de Cabíria), e Zampano, interpretado por Anthony Quinn (Zorba, o Grego), apresentaram ao público suas habilidades artísticas.


(A Estrada da Vida/Divulgação: Adoro Cinema)

O descompasso dos dois é contado desde o início. Zampano é pobre, mas menos pobre que Gelsomina e, aproveitando-se da condição socioeconômica do país que se reflete nas famílias, compra a moça por 10 liras – aproximadamente vinte boas refeições na época. Ele também é o artista principal que recruta assistentes femininas para ajudá-lo em suas performances, dentre estas a mais esperada consiste numa demonstração brutal, onde com a força dos pulmões arrebenta uma corrente de ferro. No entanto, Gelsomina é doce e carismática e vai ganhando espaço com sua veia cômica. Essa constante não vai se alterar mais. Gelsomina, em sua breve excursão pelo meio artístico, construirá algo e será lembrada eternamente no imaginário popular. É a partir desse lirismo que nos damos conta de que estamos pisando um outro terreno, que não é mais o mesmo que pisou Antonio Ricci, personagem de Lamberto Maggiorani, do clássico Ladrões de Bicicleta (1948), filme de Vittorio De Sica e considerado pelo crítico André Bazin como o mais revolucionário do neorrealismo italiano. 

(A Estrada da Vida/Divulgação: GIPHY)

Por ser um filme que se passa com Zampano e Gelsomina se apresentando em ruas, festas e circos e, consequentemente, percorrendo muitos quilômetros em cima de uma moto americana, a direção de fotografia de Otello Martelli (Os Boas Vidas) se alterna entre planos abertos, capazes de explorar cenários naturais que mostram essa presença estrangeira coletora dos despojos da guerra, por exemplo, o emblema da ExxonMobil Corporation – Esso – ao fundo em uma cena, e também close-ups, tão admirado pelos formalistas e amplamente usado no cinema hollywoodiano. A essa altura do filme já estamos convencidos de que Gelsomina encarna uma espécie de the tramp de saias, afinal, não sabe cozinhar, não sabe trabalhar, não sabe e não gosta de fazer nada que não seja artístico. Gelsomina merece um close-up

Mas e o que dizer de Zampano? Seria ele um personagem aglutinador de visões maniqueístas, o mal em forma de gente, o bandido? Não. Definitivamente Fellini não era reducionista. Zampano é um dos seus primeiros personagens que se cobrem de uma solidão existencial, mas objetivada pela necessidade de não ficar sozinho. Hoje foi Gelsomina, ontem foi Rosa, amanhã será outra assistente. Todavia, o que sabemos de Gelsomina não sabemos dele. E nós, por meio das perguntas dela queremos saber se a sua agressividade se justifica socialmente, mas sua incomunicabilidade não permite. Ele não é inocente, mas o julgue somente pelo tempo que transcorre entre um rolo de filme e outro.

No centenário de Federico Fellini muito já foi falado de um de seus principais filmes, pois A Estrada da Vida dialogou com a estética que consagrou o cinema italiano ao mostrar o cotidiano popular, mas também trouxe novos elementos ao ir além da crítica social. O resultado disso foi a aclamação da crítica especializada, sendo, inclusive, o primeiro vencedor do Oscar de filme estrangeiro. 

(A Estrada da Vida/Divulgação: Adoro Cinema)

Se por um lado A Estrada da Vida é o precursor dos filmes de Fellini que vai deixando no horizonte o neorrealismo, pode-se afirmar ao mesmo tempo que esse filme não vai ao encontro de um cinema comercial, por mais lírico e belo que seja. Num contraponto questionável e feito por este mero crítico, o final do filme italiano incomoda mais que o final de Tempos Modernos, por exemplo, pois no clássico americano a estrada e a arte dão alguma perspectiva aos personagens. Em A Estrada da Vida  (La Strada, no originalisso não acontece.

Contudo, isso não deveria ser uma surpresa para os apreciadores da obra felliniana, afinal, a maturidade já deveria ter nos ensinado que a arte não salva ninguém.     




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