sexta-feira, 2 de novembro de 2018

Bohemian Rhapsody | CRÍTICA


Se é impossível desassociar a banda Queen de Freddie Mercury e de toda a sua incomparável desenvoltura artística em conjunto com o seu timbre poderoso e eloquente, não é à toa que levaram anos para que a biopic do grupo enfim saísse do papel para as telas, não só por questões roteirísticas, mas muito por conta da incógnita de escalar um ator de um fenótipo semelhante ao do lendário frontman, falecido em 1991. Porém, mais do que um conto dedicado a acompanhar os altos e baixos de Mercury em paralelo com a trajetória da banda em seu ápice e ainda que se faça por vias intrincadas e burocráticas, Bohemian Rhapsody surge como um filme emocionante para fãs de longa data e (por que não?) um convite às novas gerações aos bastidores da criação das músicas mais emblemáticas da história do rock.


Dirigido por Bryan Singer (X-Men: Apocalipse) e roteirizado por Anthony McCarten (O Destino de Uma Nação), o longa estabelece como meta narrativa a jornada da banda (mais especificamente, de seu cantor) até os palcos do show do Live Aid em 1985, regressando quinze anos antes quando um desengonçado Farrokh Bulsara era um mero imigrante e agente de bagagem em aeroporto na Inglaterra e apreciava shows de rock de bandas universitárias, entre elas, uma que tinha Brian May e Roger Taylor como, respectivamente, guitarrista e baterista. Ingressando o time junto com John Deacon e tão logo forjando tanto o nome da nova banda e de seu nome artístico, Mercury parte para a estrada com os demais companheiros de música e começam a compor canções com refrões grudentos e riffs poderosos e concisos, contrariando as digressões psicodélicas e virtuosas que outras bandas do gênero andavam praticando na virada para a década de 70.

20th Century Fox/Divulgação)

Bohemian Rhapsody conta, porém, que a Queen era uma banda que não dava o braço a torcer para as fórmulas impostas por agentes e gravadoras e, a partir daí, buscavam se renovar a cada disco lançado em que cada integrante fornecia valiosas contribuições. Sendo assim, o filme entrega seus melhores momentos quando acompanhamos (quase) todo o processo por trás da composição e da gravação da faixa que dá título ao longa, rendendo aí momentos divertidíssimos, tal como as razões por trás do sucesso de "We Will Rock You", "Another One Bites The Dust" e as gravações do hilário clipe de "I Want To Break Free".

No entanto, a narrativa por vezes abusa de licenças poéticas desrespeitando a cronologia da banda apresentando músicas como "Love Of My Life" na icônica performance do primeiro Rock In Rio antes de 1980 e, posteriormente, "Under Pressure" é relegada a uma inserção um tanto boba ao mostrar as primeiras consequências da vida de luxúria que Mercury passou a ostentar. Não por menos, o segundo ato do filme é um dos pontos mais fracos da narrativa ao se debruçar em um retrato tão taxativo e deprimente acerca do cantor.

20th Century Fox/Divulgação)

Encarnando Mercury com total maestria, Rami Malek (da série Mr. Robot) procura fazer do músico um sujeito multifacetado por mais que o evidente comportamento lascivo do personagem tente esconder seu lado afetuoso com as pessoas próximas, mas a carência de um texto mais profundo faz com que a caracterização acabe falando mais alto. Ademais, May, Taylor e Deacon seguem bem representados por Gwilym Lee (série Jamestown), Ben Hardy e Joe Mazzello (o garoto Tim de Jurassic Park!) não só pela relatividade com os cortes de cabelo em fases específicas, mas pelo evidente bom entrosamento entre o quarteto e em sua mímese em representar a presença de palco dos músicos.

20th Century Fox/Divulgação)

Enquanto um filme que demonstra seus problemas de produção nas entrelinhas (sobretudo com as polêmicas envolvendo seu diretor ainda durante a fotografia principal) e que seja enxuto em sua abordagem sobre a AIDS, Bohemian Rhapsody tem como aspectos positivos uma montagem de cortes curiosos em sua mescla de imagens e sons e, sem dúvidas, é um filme que não deve passar batido pelos amantes da boa música que se fazia com melodias apaixonadas e letras efusivas, tornando-se verdadeiros hinos populares e atemporais.



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