quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

120 Batimentos Por Minuto | CRÍTICA


Ausente de indicações para Melhor Filme Estrangeiro no Globo de Ouro e até mesmo nos semifinalistas do Oscar, 120 Batimentos Por Minuto recebeu o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes de 2017 e a aprovação de um emocionado Pedro Almodóvar justamente pelo retrato intenso com que o diretor Robin Campillo faz da resistente militância dos ativistas franceses do grupo ACT UP no início da década de 1990. Entre ecos de preconceitos e burocracias conservadoras, o longa não poupa esforços ao mostrar a vida de integrantes do coletivo que, apesar do medo avassalador causado pela AIDS, jamais deixou de batalhar pela sobrevivência própria e pela de seus combalidos iguais.

Numa época onde a epidemia do HIV só fez a discriminação aumentar contra LGBTs e outros doentes, o ACT UP incansavelmente se empreendia na conscientização da população geral quanto ao uso de preservativos nas relações sexuais e por melhores tratamentos médicos enquanto políticas governamentais e a indústria farmacêutica fugiam a todo o custo do assunto. Com uma abordagem notavelmente apurada, Campillo apresenta uma câmera bastante sensível ao se aproximar da diversidade do grupo de voluntários bem intencionados e, a partir daí, não se retém em alongar as cenas das tantas reuniões que, apesar de receber novos integrantes, se vê sempre perdendo um ou outro companheiro para a terrível doença, o que, por outro lado, só aumenta as suas forças para saírem pelas ruas protestando contra tamanha negligência daqueles que, mesmo em constante pressão por parte do ACT UP, parecem pouco interessados em mudar a situação.


Ao passo em que cada reunião e protesto avançam a duras penas e com divergências de ideias até dentro do próprio grupo, Campillo se dedica paralelamente a contar a relação sorodiscordante de Sean (Nahuel Perez Biscayart) e Nathan (Arnaud Valois) incrementando o filme, ritmado por uma trilha de pianos e batidas que bem recorda do estilo musical da ocasião,  com sensualidade sem tabus a fim de provar que, apesar de tudo, eles seguem vivendo suas vidas como podem, sendo esteticamente interessante o desenho cênico que o diretor traça quando os amantes contam sobre suas relações do passado. Apresentando ocasionalmente montagens paralelas inteligentes por um bom uso de pontos de vista diferentes, além de todo o impacto de inserir brevemente uma banheira cheia de sangue, por outro lado, o filme deixa de lado seus bons atributos cinematográficos quando se empreende demais a cada reunião apresentada, logo quando cada ação consequente disso (as ocupações nos eventos e empresas, as paradas gays, os cartazes e seus slogans fulminantes) por si só ilustra de forma bem mais impactante. Outra ressalva fica por conta de seu final que, apesar de retomar a montagem paralela entre um ato sexual e um ato político, faz sua justaposição concordar sem querer com uma presunçosa asserção mencionada anteriormente.

Complementar aos esforços narrados e vistos em Clube de Compras Dallas, mas sem o apelo cosmético que laureou seus atores em 2014, 120 Battements Par Minute (no original) se faz um documento ficcional conveniente e emocionante (além do desconforto e da tristeza, ainda há espaço para a alegria) de uma causa que, alinhada à sua necessidade de cura, também precisa ser levada com compreensão e tato.




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