sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Liga da Justiça | CRÍTICA


Os mais de dois bilhões de dólares arrecadados pela trilogia dirigida por Christopher Nolan deram à Warner e à DC Comics (principalmente com os filmes lançados entre 2008 a 2012) um indicativo de como levar seus prestigiados super-heróis para as telas do cinema com uma narrativa inclinada para um bom espetáculo de ação sem abrir mão de seu veio existencialista e de sua atmosfera soturna, ao contrário do fracassado modelo paspalhão de Lanterna Verde. Mexer no codex de sucesso preestabelecido por Nolan parecia incerto quando O Homem de Aço veio à tona com a então louvada estética do diretor Zack Snyder, sedento em dialogar sua predileção por um visual lúgubre e frenético com a origem filosófica do kryptoniano interpretado por Henry Cavill e, do ímpeto em ser o responsável de seguir a tendência de um outro estúdio e estabelecer um conjunto cinematográfico dos personagens da editora, Snyder apresentava Batman vs Superman carregado de boas intenções para o futuro, mas a operística meio mal-ajambrada do roteiro alimentava a dúvida do estúdio se ainda era rentável manter o clima sombrio e sério que, para muitos, era primordial em um "filme da DC". Das crescentes imposições demandadas pela Warner notáveis na interpolação de futuros projetos, a aprovação geral de Mulher-Maravilha sugeria coordenadas tentadoras para guiar os heróis em suas próximas aventuras; um passo para a luz que se demonstra certeiro, mas ao custo do tom original das histórias e da liberdade autoral que o estúdio tanto se orgulhava em defender.

Dizer, portanto, que Liga da Justiça ruma para o caminho certo soa arbitrário e presunçoso uma vez que os longas anteriores, mediante seus acertos (e fazendo vista grossa para Esquadrão Suicida), contribuíram para a originalidade e para o compasso das histórias propostas ao universo, da mesma forma que é um equívoco afirmar que a soturnez deveria ser eterna e inerente ao mesmo ou, pior, que cada personagem deveria ter compulsoriamente um filme solo antes de se juntar ao super-time (imaginem o que acontecesse caso houvesse um longa para cada integrante de Os Sete Samurais ou de Onze Homens e Um Segredo ou se lembrem do que aconteceu quando Peter Jackson pediu para fazer um terceiro O Hobbit…). Fato é que, desde o início da sua produção (afetada diretamente pelo feedback crítico a Batman vs Superman), o novo filme de Zack Snyder roteirizado inicialmente por Chris Terrio já aspirava por uma história bem mais amistosa do que assistida até então e, quando Joss Whedon (Vingadores: Era de Ultron) foi convocado para complementar o roteiro e assumir as refilmagens (após uma tragédia na família do diretor), a sensação não poderia ser outra: impera-se aqui um otimismo jovial e um resgate ao heroísmo que, agora, se preocupa menos em discutir o peso físico e moral de se vestir a capa, o capuz e/ou a armadura.


Das perceptíveis mudanças onde muitas das adições vêm a calhar enquanto alguns dos típicos gracejos verbais do roteirista nem sempre funcionam, é evidente também que a maior contribuição de Whedon à produção era a necessidade de prover um foco nítido à trama que, de início, insistia em estabelecer mais detalhes do universo em continuidade enquanto se afastava de seu objetivo principal – o que veio a deixar as personagens de Willem Dafoe e Kiersey Clemons, além de pares de cenas com Victor Stone/Ciborgue (Ray Fisher), de fora do corte final. Entre diálogos refinados (Amy Adams e Diane Lane surgem bem mais à vontade enquanto a relação de Victor com seu pai, Silas – Joe Morton –, é melhor trabalhada) que visam a diversão e mais rostos sorridentes em cena, resultando em uma excelente química de seu elenco principal, tudo converge para a formação e a dinâmica da Liga da Justiça que, afinal de contas, é o que importa aqui mesmo que isso signifique reduzir o colossal Lobo da Estepe a um mero obstáculo de péssima composição digital – e ele só não é completamente esquecível porque a irreverente voz de Ciarán Hinds ainda lhe confere um mínimo de personalidade.


Em meio a este ensolarado "mundo sem esperança" em que o Superman passou a ser valorizado somente após sua partida (como quase tudo na vida…), muito da concepção original de Zack Snyder para Justice League prevalece na tela em uma plausível dedicação a honrar o legado dos heróis, mantendo o que funcionou nas aventuras anteriores ao passo em que adapta os novatos da forma mais atrativa possível para o cinema. Ora, se Gal Gadot surge mais confiante e adorável a cada cena em que entra, justificando seu casting e o êxito do filme dirigido por Patty Jenkins, e que Snyder e Ben Affleck formam a dupla que melhor transpôs a desenvoltura do Batman para a telona da mesma forma em que o ator aproveita a nova deixa para se livrar da carranca imposta a Bruce Wayne em suas primeiras aparições, a entrada de Ciborgue, Arthur Curry/Aquaman (Jason Momoa) e Barry Allen/Flash (Ezra Miller) ao time não se enrola em introduzi-los (nessa pressa, a distinção nos figurinos, nos cenários e na fotografia – e até músicas! – já dizem muito sobre cada um deles) e aprova de imediato o potencial dos personagens tal como bem aconteceu com a Mulher-Maravilha no ano anterior, atiçando o público com estas breves amostras dos poderes de cada um deles.

Inclusive, é digno de nota o trabalho de Snyder com o diretor de fotografia Fabian Wagner (Game Of Thrones) ao utilizar uma maior proporção de tela no intuito de aumentar a escala de ação do filme e, nesse caso, seus melhores momentos surgem não só na excepcional abertura com o Batman caçando um parademônio, como na sequência do túnel de Gotham e, talvez aquela que era a mais inesperada, a incursão das Amazonas comandadas pela Rainha Hipólita (Connie Nielsen) em todo o seu esplendor tático contra as forças do digital Lobo da Estepe. Ironicamente, é também a única parte em que a ameaça do vilão confere mais peso às consequências deixadas em Temiscira, ao contrário do entrecortado e avermelhado clímax russo – onde a mão de Whedon também pesou.


Projetado como um evento menor e imperfeito ao contrário do que lhe era esperado e merecido (culpa de uma gananciosa presidência do estúdio visando um corte final de duração mais comercial – e que não se sucedeu como esperado), culminando em uma montagem com cenas tão cortadas que por vezes desafiam a persistência da retina (coisa que dez ou quinze minutos fariam toda a diferença!) ao som da trilha de Danny Elfman com mais nostálgicas do que ilustres sinfonias, Liga da Justiça vence na sua dinâmica contagiante ao prezar pelo entretenimento e por seu discurso positivista em uma época onde a atualidade já se porta suficientemente obscura. Para aqueles(as) que acreditam, a Era dos Heróis está de volta e fica melhor ainda quando se percebe que, até o findar da última cena pós-créditos, também há um belo sorriso no próprio rosto.




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